'Estrangeiro vai esperar para ver'

24/10/2014
Para Mendonça de Barros, capital que não saiu, vai embora na hipótese da reeleição

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Assim como os brasileiros, os investidores estrangeiros vão saber no domingo à noite quem será o presidente do Brasil pelos próximos quatro anos, a partir de 1º de janeiro. Atentos à tendência dos eleitores há semanas, eles perceberam o fortalecimento do apoio à candidatura da presidente Dilma Rousseff à reeleição pelo PT. "Por serem conservadores como são, esses investidores vão sair do Brasil e esperar para ver o que acontece. Quem ainda não foi, irá", afirma Luiz Carlos Mendonça de Barros, estrategista da Quest Investimentos.

Presidente do BNDES e ministro das Comunicações do governo Fernando Henrique Cardoso, Mendonça de Barros calculava ontem pela manhã que, pela tendência dos votos, Dilma seria reeleita. O engenheiro e economista falou com o Valor antes da divulgação das pesquisas Datafolha e Ibope.

Ele divide os investidores em Brasil em dois grupos. "Há o grupo dos que acreditam que o Brasil passará por um período de dificuldades e depois vai melhorar. E, portanto, é um país para onde vale a pena voltar. E há o grupo que pensa que viramos uma Venezuela. Esse grupo não volta mais."

Mendonça de Barros lembra que os grandes investidores em portfólio aplicam principalmente em taxa de juros no Brasil. Levam em conta o fato de o juro estar a quase zero no mundo e continuar elevado por aqui. "Eles defendem essa posição. Na verdade, duas. Considerando que sua moeda é dólar, os investidores aplicam em juro, mas dependem também do câmbio para ter o retorno esperado. Dependem da precificação de dois ativos."

Para o estrategista, aqueles que estão com alocações em renda variável também vão rebalancear as suas carteiras, já que os principais papéis investidos pelo capital externo são de estatais. "Na hipótese de Dilma ser reeleita, o problema aumentará. E a tendência será de migração desses papéis para outros de empresas privadas que poderão até se dar bem com maior oferta de recursos, mas essa oferta será mais instável porque as empresas são menores e várias oferecerão oportunidades de aplicação."

Mendonça de Barros pontua que o investidor capaz de fazer diferença na história de um país é o que traz dinheiro de fora e dá gás à economia. É conservador e assume compromissos de longo prazo. Não fica quicando de lá para cá como um especulador no curto prazo, o que não quer dizer que despreze taxas atraentes de retorno. Esse investidor incorpora ao porfólio o país de origem dos principais ativos ali representados e essa é uma das razões pelas quais uma troca de governo e suas perspectivas importa. Essa mudança pode fazer diferença em sua poupança futura.

Para ele, a discussão que estará instalada no mercado já na segunda-feira trata da perspectiva de mudança da presidente Dilma e a possibilidade dela mesma entrar em uma crise política, enfrentando problemas mais adiante. "O que a presidente deve entender é que se vencer a eleição para o segundo mandato, ele será muito diferente do primeiro", diz o estrategista da Quest. Agora, ela recebeu a metade dos votos e os investidores querem saber se há o risco "desta metade" tirar o apoio à presidente.

Na hipótese de as urnas apontarem o tucano Aécio Neves como o próximo presidente da República, a questão a ser enfrentada seria a mesma de Dilma. "Na hipótese de vitória, Aécio também assume com votos de metade do eleitorado do país. E não poderia levar quem bem entendesse [ou quem muitos supõem que ele poderia] para tocar a política econômica do novo governo. Este é o Brasil de hoje."

Na segunda-feira, confirmado o placar que Mendonça de Barros considerava o mais provável - Dilma reeleita -, a reação dos mercados tende a ser bem negativa e depois melhoraria, avalia. "O mercado vai se comportar como mercado mesmo. Comprar no boato e vender no fato. Mandará o seu recado."

Para o ex-ministro, o anúncio antecipado do sucessor do ministro Guido Mantega, se Dilma for reeleita, não neutralizaria as inquietações dos investidores. "Não se vê qualquer possibilidade de Dilma nomear alguém que não venha da linha desenvolvimentista para executar a política econômica. E qualquer ousadia que afete emprego, renda, inflação tende a aborrecer a metade do eleitorado brasileiro que rendeu votos a ela. Aqui mora um risco. Nada disso acontece se ela nomear Henrique Meirelles ministro da Fazenda. Mas vai? Ninguém acredita. Até porque já teve a oportunidade e nada fez." 

Fonte: Valor Econômico