Alta da Selic pode marcar início de novo governo.

08/09/2014

Investidores no mercado de juros futuros da BM&F e economistas estão alinhados nas expectativas de que, em caso de vitória da oposição na corrida presidencial, haverá um rearranjo profundo da política econômica em 2015. Ambos compartilham a expectativa de ajuste fiscal forte, descompressão dos preços administrados e eventual aperto monetário.

Para Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, em caso de vitória de Marina Silva (PSB) o Banco Central (BC) iniciaria um ciclo de aperto monetário já em janeiro de 2015 e elevaria a Selic até 12,25%. "Será necessário um choque para mostrar que a política econômica mudou de fato e especialmente para não deixar que os preços administrados mais elevados contaminem a inflação nos anos seguintes", afirma Vale. "Isso vai demandar um BC mais agressivo em um primeiro momento."

O economista da MB ressalta, porém, que esse aperto monetário só vai enquadrar a inflação caso haja o auxílio "essencial" da política fiscal. E na opinião dele, esse ajuste só ocorrerá em caso de vitória da oposição no pleito. "A previsão de Selic em 12,25% decorre de uma elevação do superávit primário no primeiro ano do novo governo. Sem a ajuda fiscal, a Selic teria que ir além de 14%", diz.

Para a economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour, um novo governo deveria adotar imediatamente quatro medidas: ajuste fiscal de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB), com fim de desonerações e aumento de impostos; freio na expansão de crédito via bancos públicos; descompressão dos preços administrados; e uma alta da taxa básica em 0,75 ponto percentual, para 11,75% ao ano.

Esse aperto teria em vista a convergência da inflação para 4,5% no fim de 2016. "Se o novo governo conseguir gerenciar as expectativas de inflação e trouxer de volta a confiança na capacidade de o Brasil lidar com os desequilíbrios atuais, o BC possivelmente já poderá iniciar um processo de afrouxamento monetário ainda mesmo no final de 2015", afirma Solange.


Para Thais Zara, economista-chefe da Rosenberg & Associados, caso o resultado da eleição traga um impacto menor sobre a taxa de câmbio, haverá redução das pressões inflacionárias. E, com uma gestão fiscal austera, seria possível ter uma política monetária menos contracionista. "Isso mesmo que, num primeiro momento, haja alguma alta dos juros para trazer a inflação mais rapidamente ao centro da meta", afirma.

Além das variáveis que podem responder de maneira diferente ao novo governo - como taxa de câmbio e política fiscal -, a economista destaca que a evolução do mercado de trabalho e seus impactos sobre a inflação de serviços será essencial na determinação da política monetária.

A equipe de estratégia do Itaú BBA ressalta que hoje o principal tema de investimentos no mercado de renda fixa local "é um possível ajuste macroeconômico, especialmente no lado fiscal" daqui para frente. "O mercado começou a embutir nas cotações uma reversão de políticas orçamentárias mais expansionistas", afirma a equipe do banco, em relatório assinado pelo analista Maurício Oreng.

Com a economia crescendo abaixo de seu potencial, um aperto da política fiscal deve fazer com que a inflação, passado o reajuste dos preços administrados, possa recuar. Isso valeria especialmente para "horizontes mais longos", que estão condicionados às políticas econômicas que serão adotadas. E a retirada de estímulos fiscais indica que "níveis menores de inflação podem ser atingidos com juro neutro menor".

 

Fonte: Valor Econômico