Analistas veem depreciação do real em 2015.

07/11/2014
Câmbio pode se apreciar se vier ajuste da política fiscal, diz Goldenstein, da Arsa

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O comportamento do câmbio será uma das principais variáveis para o Banco Central definir a intensidade do aperto monetário nos próximos meses. Em meio a tantas incertezas sobre a trajetória do câmbio no curto prazo, um ponto parece consenso entre analistas: o real deve continuar se depreciando em 2015.

No cenário doméstico, as dúvidas concentram-se na capacidade e disposição do governo em adotar políticas macroeconômicas mais ortodoxas, especialmente do lado fiscal, o que passa pela composição da nova equipe econômica. Do lado externo, a esperada alta de juros nos Estados Unidos deve reforçar a tendência global de alta da moeda americana.

Ontem, o dólar subiu 1,90% e fechou a R$ 2,5627, maior patamar desde 19 de abril de 2005, refletindo o fortalecimento global da moeda americana e o tom menos duro que o esperado da ata do Comitê de Política Monetária (Copom), que sinalizou um aperto menor da taxa de juros.

As projeções para a taxa de câmbio das dez instituições financeiras consultadas pelo Valor variam de R$ 2,30 a R$ 2,60 para o fim de 2014 e de R$ 2,55 a R$ 2,80 para o fim de 2015. Já as previsões dos analistas no último Boletim Focus divulgado pelo Banco Central foram reajustadas após a eleição, passando, no período de 24 de outubro a 31 de outubro, de R$ 2,40 para R$ 2,45 para o fim deste ano e de R$ 2,50 para R$ 2,55 para 2015.

O Citi foi uma das instituições que alteraram suas projeções. O banco estima o dólar a R$ 2,57 (R$ 2,37 antes) para o fim de 2014 e em R$ 2,70 (ante R$ 2,58) em 2015.

O superintendente do Departamento Econômico do banco no Brasil, Marcelo Kfoury, diz que a mudança não está diretamente relacionada ao quadro eleitoral. "Haveria uma depreciação do real independentemente de quem vencesse as eleições e isso se deve muito mais às questões externas, sobretudo à normalização da política monetária pelo Federal Reserve [Fed, banco central americano], que provocou uma alta global do dólar, e a queda nos preços de várias commodities", afirma Kfoury.

O BNP Paribas também revisou para cima as projeções para o dólar: de R$ 2,21 para R$ 2,425 para o fim deste ano e de R$ 2,36 para R$ 2,60 para o fim de 2015. Entre os fatores que justificam a reavaliação, o banco cita a deterioração dos fundamentos da economia brasileira, especialmente na parte fiscal e nos termos de troca. A expectativa de fim do programa de intervenção cambial, previsto para 31 de dezembro, e o fortalecimento global do dólar também entram nessa conta. "O cenário mais provável é uma depreciação do câmbio no médio e longo prazos. Apesar disso, a depreciação do real frente ao dólar deve ser menor do que a de outras moedas 'frágeis'", afirmam analistas do BNP em relatório.

No curto prazo, no entanto, o alto retorno oferecido nas operações de "carry trade" (que ganham com diferenciais de taxas de juros entre países) e a política monetária acomodatícia nos países do G-10 continuam favorecendo uma posição técnica favorável ao real. "O 'carry' (retorno nominal ou real) permanece o mais atrativo no mundo com grau de investimento. Além disso, o BC embarcou em uma nova rodada de aumento da taxa básica de juros, o que torna a venda do real ainda mais cara", destacam os profissionais do BNP.

Outro banco que revisou para cima as projeções foi o Standard Chartered, citando a reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT). A instituição vê o dólar em R$ 2,60 ao fim deste ano (ante R$ 2,25) e em R$ 2,55 no fim de 2015, ante estimativa anterior de R$ 2,35. "A perspectiva para o real segue fraca, mas expectativas de um forte declínio podem estar superestimadas", diz o estrategista do banco para a América Latina, Italo Lombardi.

Já o J.P. Morgan recomenda posição "neutra" na moeda brasileira. Justifica que, embora o aumento de juros pelo BC e o posicionamento técnico tendam a oferecer suporte ao real no curto prazo, a deterioração do quadro fiscal e as incertezas políticas pesam contra. "Reiteramos um viés mais negativo no longo prazo, uma vez que um câmbio mais depreciado será necessário para contrabalançar a deterioração das contas externas", aponta o banco em relatório.

O Banco Sumitomo Mitsui manteve a projeção para o dólar. O diretor-presidente do banco no Brasil, Takaaki Otani, afirma que as estimativas já incluem o cenário de desafios ao novo governo, como a retomada da credibilidade da política fiscal e a redução do déficit em transações correntes.

Para o economista-chefe da Votorantim Corretora, Roberto Padovani, a tendência é de desvalorização do real no médio prazo devido ao baixo crescimento do Brasil em relação à economia global e ao fortalecimento do dólar no mundo. No curto prazo, Padovani destaca que a trajetória do câmbio está ligada à confiança na política e reformas macroeconômicas.

Na visão do gestor da Arsa Investimentos Sérgio Goldenstein, se o governo nomear alguém de credibilidade para a Fazenda e anunciar medidas de ajuste fiscal e parafiscal, o câmbio pode encerrar este ano entre R$ 2,30 e 2,40.

Essa perspectiva é sustentada por três fatores. O primeiro deles é a retomada da confiança dos investidores. Em segundo lugar, o aumento da taxa Selic mantém a aplicação em real atrativa, especialmente em um cenário em que a elevação da taxa de juros nos EUA deve ser gradual e o Japão e a Europa continuam com políticas monetárias acomodatícias. E, por último, o gestor lembra que a posição comprada em dólar por parte dos investidores, especialmente os estrangeiros, já está bastante elevada (em quase US$ 34 bilhões), o que abre espaço para uma correção.

No entanto, se as medidas anunciadas forem insuficientes para retomar a confiança do mercado, o câmbio pode chegar a R$ 2,60 no fim do ano. "Se não houver mudança na política fiscal teremos um rebaixamento do rating soberano do Brasil", diz Goldenstein.

Fonte: Valor Econômico