Aumento do caixa limita risco de liquidez em fundos nos EUA.

19/08/2014

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O recorde de US$ 3,5 trilhões depositados nos fundos de renda fixa dos Estados Unidos está fortalecendo o fantasma que vai assolar o mercado de bônus na onda de saques que deverá ocorrer assim que as taxas de juros subirem. Mas uma conta simples sugere que não há muito com o que se preocupar.

Embora os ativos dos fundos tenham quase dobrado desde a crise financeira, o tamanho desses ativos enquanto parcela dos fundos mútuos existentes nos EUA ainda está dentro da média de 21% das últimas três décadas, segundo o Investment Company Institute (ICI). Os gestores de fundos de títulos de dívida também mantêm quase 9% dos ativos em cash (títulos de curto prazo e liquidez imediata), algo perto do mais alto patamar em um quarto de século e mais que a taxa máxima das retiradas ocorridas em 1994 - um dos piores anos para os bônus.

Depois que James Bullard, presidente do Fed de St. Louis, disse em 15 de agosto que os mercados provavelmente estão enganados se esperam que as taxas de juros vão subir mais lentamente que o previsto pelas autoridades monetárias, gestoras de recursos como a BlackRock pediram às autoridades reguladoras que evitem uma possível crise de liquidez que poderá agravar uma onda de vendas se muitos investidores tentarem sair dos bônus de uma só vez. O tombo dos bônus, que economistas vêm prevendo o ano todo, poderá finalmente ocorrer, mas o J.P. Morgan Chase diz que as retiradas não deverão desencadear uma onda de vendas que derrube os mercados de dívida.

"Os temores são exagerados", disse Nikolaos Panigirtzoglou, estrategista de mercado global do J.P. Morgan em Londres, em entrevista por telefone. "Se você olhar para a história, verá que os investidores não estão investidos demais e que os fundos de bônus estão bem posicionados."

Dados compilados pela "Bloomberg" mostram que nunca esteve tão alta a possibilidade de o Federal Reserve (Fed) engendrar um pouso suave da economia depois de quase seis anos com os juros próximos de zero, uma vez que a quantidade de dívida pública em circulação atinge o recorde de US$ 17,7 trilhões.

Nos EUA, títulos de dívida de todos os tipos, de Treasuries a junk bonds, tiveram um rali este ano, o que está confundindo aqueles que previram perdas quando o Fed decidiu reduzir o estímulo extraordinário que vinha dando suporte à economia americana desde 2008. Dados compilados pelo Bank of America mostram que o retorno médio de 4,9% é o maior desde 2011, numa base ano sobre ano.

Os rendimentos dos Treasuries de dez anos, a referência para trilhões de dólares em títulos, caíram na semana passada ao menor nível desde junho de 2013, com o agravamento do conflito entre a Rússia e a Ucrânia aumentando a demanda por ativos mais seguros. Os rendimentos caíram 0,69 ponto porcentual este ano, até 15 de agosto, e fecharam em 2,34% na semana passada. Eles estavam em 2,38% ontem em Nova York.

O mercado de bônus tem sido apoiado por pequenos investidores que estão aplicando em fundos de renda fixa, que reforçaram seus ativos em US$ 1,77 trilhão desde o começo de 2008, segundo o ICI.

Segundo a BlackRock, a maior gestora de recursos do mundo, o entusiasmo pelos bônus aumentou o risco de um salto súbito nos rendimentos levar a uma onda de saques, ampliando as perdas.

A firma de Nova York, que gerencia US$ 4,32 trilhões, publicou em maio um relatório dizendo que as autoridades reguladoras deveriam impor limites a certas retiradas e padronizar as provisões, que permitiriam aos fundos sob pressão transferir bônus em vez de dinheiro. "A minimização do 'risco de fuga' abrandaria o risco sistêmico", diz o texto.

Embora o aumento da demanda pelos bônus desde a crise financeira tenha dado credibilidade à noção de que os riscos aos investidores raramente foram tão grandes, isso não conta a história toda. Os fundos de bônus respondem por 22% da indústria de fundos mútuos dos EUA, que movimenta US$ 15,66 trilhões. Isto é apenas um ponto percentual a mais que a média desde 1984, segundo o ICI.

Ao mesmo tempo, os fundos de renda fixa aumentaram seus colchões em cash para 8,7% dos ativos, em comparação a 7,3% um ano atrás. Isso é mais que a média histórica de 5,4%. Numa base trimestral, os fundos só tiveram mais ativos líquidos uma vez nos últimos 30 anos, no segundo trimestre de 2011.

Durante 1994, quando os títulos de dívida dos EUA perderam 2,75% no pior ano já registrado, os saques nunca excederam 6% dos ativos dos fundos de bônus em qualquer trimestre, segundo o J.P. Morgan.

Os gestores de bônus estão mais preparados para atender as retiradas após a onda de vendas de 2,25% do ano passado, apelidada de "taper tantrum", ter levado os rendimentos dos Treasuries de 10 anos a subirem 1,4 ponto porcentual em quatro meses e desencadeado a maior sequência de saques dos fundos de bônus desde 2000.

"O risco de um esgotamento de dinheiro no sistema parece improvável" uma vez que os fundos de bônus aumentaram a liquidez, disse Ira Jersey, estrategista de juros do Credit Suisse em Nova York. A firma com sede em Zurique é um dos 22 dealers primários que negociam com o Fed.

Robert Tipp, o principal estrategista de investimentos da unidade de renda fixa da Prudential Financial, que gerencia US$ 335 bilhões, não tem tanta certeza de que os fundos conseguirão lidar sem problemas com uma onda de saques, especialmente quando o Fed começar a elevar os juros. "O mercado está negociando de maneira muito ingênua", disse Bullard do Fed em uma entrevista à estação de rádio por satélite SiriusXM na semana passada. "Acho que isso pode ser um erro."

Como os rendimentos dos títulos de dívida dos EUA estão muito baixos, a possibilidade de perdas quando eles subirem está agora perto do maior nível histórico, com base em uma métrica do mercado de bônus conhecida como "duration".

A possibilidade de os fundos não conseguirem vender quando precisarem também emergiu depois que as regras criadas para conter a tomada de riscos diminuíram a disposição dos dealers de manter bônus. "É uma preocupação válida a entrada de tanto dinheiro nos fundos de bônus, especialmente em razão dos níveis dos rendimentos", disse Tipp. "Poderá haver deslocamentos significativos. A esta altura, é difícil dizer o quanto as coisas poderão ficar ruins quando mudarmos de lado."

Um número crescente de aposentados e pensionistas também tem comprado bônus em busca de uma renda estável e de baixo risco, em uma mudança demográfica que deverá sustentar a demanda por dívida nos próximos anos. Ao mesmo tempo, os bônus dos EUA estão com os maiores rendimentos em cinco anos, em comparação ao resto do mundo, o que poderá atrair compradores estrangeiros.

"Os bônus não estão numa bolha", disse Jennifer Vail, chefe da área de pesquisa de renda fixa do U.S. Bank, que administra US$ 112 bilhões. "No geral, a demanda não diminuiu."

Para James Kochan, estrategista-chefe de renda fixa do Wells Fargo Funds Management, ter dinheiro extra significa que os clientes que querem sair poderão ter seu dinheiro, ao mesmo tempo em que os gestores terão capacidade de abocanhar mais bônus a rendimentos maiores, sempre que os preços caírem.

Fonte: Valor Econômico