BC mantém projeção de US$ 80 bilhões de déficit em transações correntes no ano.

25/09/2014

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O Banco Central (BC) não mudou a projeção para o déficit em conta corrente em 2014 na terceira revisão do ano. O resultado das transações do país com o resto do mundo será negativo em US$ 80 bilhões ou 3,52% do Produto Interno Bruto (PIB). O patamar pode ser desconfortável, já que figura entre os maiores dos últimos dez anos, mas não preocupa o BC, pois o cenário de financiamento continua tranquilo e até um pouco melhor que nos últimos meses.

De acordo com o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Túlio Maciel, cerca de 80% do déficit é coberto com Investimento Estrangeiro Direto (IED), que deve somar US$ 63 bilhões no ano. O BC também não mudou essa expectativa, que pode ser considerada conservadora, já que o IED em 12 meses até agosto somava US$ 67 bilhões, acima, portanto, do prognóstico.


Ainda nas projeções, o BC vê um superávit comercial de US$ 3 bilhões para 2014, estimativa que caiu dos US$ 5 bilhões previstos anteriormente. O BC começou o ano vendo superávit de US$ 10 bilhões. A projeção incorpora, basicamente, o ocorrido nos últimos três meses. Há uma retração da corrente de comércio. De janeiro até agosto, as exportações caem 1,7%, enquanto as importações recuam 4,1%. Em volume, há aumento das vendas externas, notadamente petróleo bruto, mas os preços recuam 3,8%.

Conforme já desenhado pelos dados passados, essa estabilidade do déficit externo reflete, em grande parte, a debilidade da atividade econômica, que se mostra em menores importações, redução na remessa de lucros e dividendos e agora, em agosto, até em uma redução na conta de serviços em linhas como aluguel de equipamentos. Segundo Maciel, no entanto, essa redução em agosto pode ser algo pontual.

Para as remessas de lucros e dividendos, o BC fez um ajuste de US$ 26 bilhões para US$ 25 bilhões. Nos ingressos para investimento em carteira, o BC prevê US$ 12 bilhões para o mercado de ações (sem alteração sobre junho) e outros US$ 23 bilhões para o mercado de títulos - a estimativa anterior era de US$ 18 bilhões. Em agosto, o déficit em conta corrente foi de US$ 5,489 bilhões, em linha com o previsto pela autoridade monetária. O IED ficou acima dos US$ 4,2 bilhões previstos, somando US$ 6,840 bilhões.

Esse quadro, no entanto, não se repetirá em setembro. O BC estima déficit de US$ 6,7 bilhões, contra US$ 3 bilhões em IED. A parcial até dia 22 apontava ingresso de IED em US$ 2,1 bilhões. A piora, segundo Maciel, decorre da balança comercial, que não deve repetir o resultado positivo de agosto.

No mês passado, as remessas de lucros e dividendos ficaram em US$ 2,322 bilhões e o pagamento de juros foi de US$ 650 milhões. As parciais para setembro mostram saída de US$ 998 milhões em lucros e dividendos e US$ 275 milhões em juros.

Depois de saídas no mês de julho, os investimentos em carteira voltaram a ser positivos em agosto e o mesmo deve acontecer em setembro. No mês passado, o mercado de ações teve entrada líquida de US$ 1,61 bilhão. A renda fixa (títulos negociados no país) recebeu outros US$ 3,427 bilhões. No ano, as ações receberam US$ 10,6 bilhões e renda fixa teve captação líquida de US$ 21,95 bilhões. Neste mês, até o dia 22, as ações tinham resultado líquido positivo de US$ 1,076 bilhão, e a renda fixa recebeu US$ 2,713 bilhões.

O dólar mais caro e a desaceleração da renda ainda não reduziram o ímpeto dos turistas brasileiros. Os gastos seguem batendo recorde. Em agosto, foram US$ 2,354 bilhões deixados fora do país, enquanto os estrangeiros gastaram US$ 499 milhões por aqui. Com isso, o déficit dessa conta, que integra o quadro de serviços, foi de US$ 1,855 bilhão. No ano, o déficit é de US$ 12,319 bilhões, e deve chegar a US$ 18,5 bilhões até o fim do ano. Em junho, o BC projetava um buraco de US$ 18 bilhões.

As parciais mostram déficit de US$ 1,441 bilhão. Em setembro, até dia 22, os brasileiros gastaram US$ 1,791 bilhão em viagens internacionais, e os estrangeiros deixaram US$ 350 milhões por aqui.

As novas emissões de dívida externa de médio e longo prazo por empresas privadas e estatais não voltaram a superar os pagamentos, com isso, a taxa de rolagem ficou em 51% no mês de agosto. Esse quadro dá sinais de melhora em setembro, já que a parcial mostra rolagem total na casa dos 108% até dia 22.

Fonte: Valor Econômico