Cautela marca início do plantio de grãos.

24/09/2014

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Quando o ministro da Agricultura, Neri Geller, subir hoje em uma plantadeira em Dourados (MS) e simular o início da semeadura de soja no Brasil nesta safra 2014/15, em evento que será transmitido ao vivo pela TV, milhares de produtores rurais espalhados pelo país estarão se perguntando que retorno financeiro terão com suas lavouras. E essa dúvida faz todo o sentido, uma vez que as perspectivas apontam para preços baixos e margens de lucro bem menos generosas do que nas últimas temporadas.

Na região escolhida para o pontapé inicial, não é diferente. A previsão de que a produção nacional de soja deverá crescer cerca de 10% em relação ao ciclo anterior (2013/14), para 95 milhões de toneladas, e as projeções que indicam que as cotações continuarão em queda - em meio aos custos mais elevados - têm tirado o sono dos agricultores.

Proprietário de uma fazenda de 237 hectares, em Douradina, município colado a Dourados, onde alterna o plantio de soja com o de milho e a criação de gado bovino, Lúcio Damalia contabiliza despesas que já teve com a aquisição de sementes, inseticidas e fertilizantes e lança incertezas sobre a nova safra.

"Devo ter um custo total com insumos e mão de obra entre 15% e 20% maior nesta safra", afirma Damalia. "A questão é que o Brasil e o mundo estão produzindo muito, então vai sobreviver quem souber planejar melhor sua produção e minimizar seus custos."

Já que não é possível fugir muito do aumento dos custo de produção, diz o produtor, a solução é priorizar tecnologias de plantio, para aumentar a produtividade sem necessariamente comprar mais adubo ou máquinas mais modernas. Ele se refere a técnicas como plantio direto na palha, integração lavoura-pecuária ou agricultura de precisão. De acordo com cálculos da Aprosoja Brasil, entidade que representa produtores de soja, os custos com fertilizantes devem aumentar 41% na temporada 2014/15.

"Eu sei que nem todo mundo é assim, mas eu já consigo me financiar com capital próprio, então o jeito vai ser não tomar crédito para custeio," afirma Damalia. Ele avalia que a saída para o produtor é controlar gastos e não honrar vários compromissos no início de safra. Em sua opinião, as piores alternativas seriam reduzir a área plantada ou mesmo substituir as plantações de soja por outras, como cana-de-açúcar, por exemplo.

Já Maurício Saito, presidente da Aprosoja-MS, afirma que os sojicultores devem ter cautela na hora de negociar mais quantidades de insumos até dezembro - quando geralmente se encerra o plantio da cultura -, uma vez que uma primeira leva de produtos já foi comprada para o preparo do plantio da oleaginosa.

"Se não tiver fluxo de caixa é melhor não aumentar os investimentos", aconselha Saito, que prevê "empate" para a rentabilidade dos produtores comparando as safras 2014/15 e 2013/14. "O maior indicador de cenário desfavorável para soja é que até março temos apenas 5% de contratos futuros já firmados e no mesmo início de safra passada esse patamar foi bem maior."

Apesar do cenário, a Federação de Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), estima que a área plantada no Estado com soja supere em 5% a da safra passada, alcançando 2,3 milhões de hectares. O crescimento está em linha com o estimado nacionalmente pela Conab, que aponta uma área total de 31 milhões de hectares na safra 2014/15. "É muito difícil que a gente amplie muito as duas últimas safras, e é importante dizer que devemos ter margens apertadas de ganhos, mas com lucro", avalia Lucas Galvan, coordenador da área técnica da entidade.

Segundo ele, a estimativa é que o preço médio da oleaginosa no Estado caia para até R$ 50 por saca de 60 quilos - em 2013/14, os valores praticados se aproximaram de R$ 60. Já o presidente do Sindicato Rural de Dourados, Marisvaldo Zuli, relata que já há casos de contratos na região fechados a R$ 50 por saca. "Mas pode abaixar para até R$ 40", diz.

Em recente entrevista ao Valor o ministro Neri Geller não descartou uma recuperação dos preços da soja em caso de problemas climáticos no Hemisfério Sul.

Fonte: Valor Econômico