Cenário limita flutuação cambial.

25/08/2014

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Apesar do consenso do mercado de que a taxa de câmbio deve passar por um ajuste após as eleições e da defesa de um regime flutuante feita pelos assessores econômicos dos dois principais candidatos à presidência da oposição, especialistas não acreditam numa súbita interrupção das intervenções do Banco Central. A leitura é que algum grau de intervenção no câmbio ainda deve ser necessário em 2015, dado o cenário de inflação próxima ao teto da meta e a perspectiva de normalização da política monetária nos Estados Unidos, que poderá reduzir o fluxo para mercados emergentes.

A necessidade de intervenções, no entanto, dependerá da política macroeconômica a ser implementada pelo próximo governo e seus efeitos.

Os assessores econômicos dos candidatos da oposição têm defendido a retomada da política de câmbio flutuante. Segundo o ex-presidente do BC e assessor econômico de Aécio Neves (PSDB), Armínio Fraga, o BC deveria atuar no câmbio apenas em situações extremamente necessárias. "Como regra, defendo a flutuação cambial, reservando as intervenções para momentos extremos", afirmou Fraga, por e-mail.

Eduardo Giannetti da Fonseca, um dos principais formuladores da política econômica de Marina Silva (PSB), tem defendido correção no câmbio e nos juros já no início do próximo governo e um BC independente.

Para o ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda Luiz Gonzaga Belluzzo, as condições para o real se desvalorizar são muito estreitas, referindo-se, entre outros fatores, à inflação. Belluzzo diz que as quase duas décadas de valorização do real tornaram mais difícil corrigir esse movimento, devido também aos custos políticos. "Se o próximo governo quiser colocar isso em prática, não vai sair de graça, seja qual for o presidente", afirma Belluzzo, para quem é difícil imaginar um choque de preços relativos já no começo do próximo governo.

Para um gestor de investimento e ex-diretor do BC que prefere não ser identificado, a prorrogação da atuação do Banco Central no câmbio tem ajudado a perpetuar o desiquilíbrio da conta corrente, que acumula déficit de 3,59% do PIB em 12 meses (encerrados em junho), aumentando a dependência do ingresso de capitais para portfólio, que são mais voláteis.

Por enquanto, o governo não teve problemas em financiar esse déficit em um cenário de manutenção das políticas monetárias acomodatícias pelos bancos centrais dos maiores países desenvolvidos, que impulsionaram as operações de "carry trade" - que buscam ganhar com o diferencial entre os juros praticados pelos países.

O ex-diretor do BC José Júlio Senna considera que quem assumir o Planalto em 2015 vai ter de lidar com o dilema de ter de reduzir o ritmo de intervenção cambial com o desafio de garantir alguma estabilidade na taxa para garantir uma previsibilidade para a indústria. Senna diz que não necessariamente a melhor política cambial é aquela que deixa o câmbio flutuar "livremente". No entanto, o economista se diz contra uma intervenção "sistemática", que para ele é a que está ocorrendo agora.

Para Senna, atual diretor do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV, o câmbio precisará passar por um ajuste no próximo ano para que haja retomada do crescimento econômico. A questão é que um ajuste na taxa de câmbio teria espaço apenas no caso da eliminação de mecanismos que têm comprimido alguns níveis de preços de maneira artificial. "Se quiserem melhorar as expectativas para a política econômica, terão que expor a real inflação, uma inflação corretiva, que pode provocar piora de leitura no curto prazo, mas que traria as bases para uma recuperação da confiança à frente."

Os principais candidatos da oposição, Marina e Aécio, apontam uma agenda econômica ortodoxa, que inclui aperto da política fiscal e retomada do tripé macroeconômico - baseado no regime de metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário -, o que pode contribuir para reduzir as pressões inflacionárias, abrindo espaço para o BC diminuir a atuação no câmbio.

Além disso, analistas destacam a credibilidade da equipe que está por trás da elaboração das propostas na área econômica de Marina, encabeçada por economistas como Giannetti da Fonseca e André Lara Resende, um dos criadores do Plano Real, ambos com perfil mais próximo do da equipe de Aécio, liderada por Fraga. Já o governo Dilma tem optado por um ajuste gradual de combate à inflação, priorizando o pleno emprego.

Segundo analistas, em um cenário de um segundo mandato do governo Dilma Rousseff, a reação do mercado pode ser um pouco mais pessimista, com o câmbio podendo se depreciar em um primeiro momento até que o governo entregue resultados.

Na avaliação de Emílio Garófalo Filho, ex-diretor do Banco Central, será difícil o próximo BC escapar da necessidade de continuar intervindo no câmbio, destacando que um programa com estoque de US$ 92 bilhões exige uma estratégia de saída, de preferência suave e constante.

Garófalo diz que, no caso de o resultado das eleições criar um clima de otimismo, é possível que haja mais entrada de capital, num movimento que tende a apreciar o real. Por outro lado, no caso de os mercados não gostarem dos desdobramentos das eleições, o desafio será evitar uma disparada do câmbio, o que exigiria mais intervenção. "Em suma, o BC vai continuar intervencionista. Num cenário bom, para evitar a valorização do real. Num cenário ruim, para impedir uma corrida desenfreada por dólar", diz Garófalo, atualmente no Banco Ourinvest.

Fonte: Valor Econômico