Com mais dias úteis, economia deve ter leve melhora no 3º tri.

02/10/2014

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O "apagão" sofrido pela economia em junho, durante a realização da Copa do Mundo, deve ter sido parcialmente revertido ao longo do terceiro trimestre, principalmente por causa do maior número de dias úteis no período. Indicadores de atividade já divulgados sinalizam para modesto crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) entre julho e setembro, em magnitude suficiente apenas para recuperar a queda no segundo trimestre.

Para economistas, como boa parte da alta se deve à base fraca de comparação, a avaliação é de que a economia segue estagnada. Já representantes de associações industriais relatam baixo nível de encomendas para as festas de fim ano e ritmo fraco de produção previsto para setembro e outubro, com alguma possibilidade de leve melhora nos últimos meses do ano, passadas as incertezas com o período eleitoral.

De acordo com dados divulgados até a primeira quinzena de setembro, a LCA Consultores estima crescimento de 0,7% do PIB no terceiro trimestre, na comparação com os três meses anteriores, feitos os ajustes sazonais.

Boa parte dessa alta, porém, pode ser explicada pela variação de dias úteis, diz Bráulio Borges, economista-chefe da LCA. Além dos feriados nacionais, as empresas pararam por outros dois dias em função da Copa do Mundo, afirma Borges, que considerou o consumo de energia elétrica diário no período para fazer essa estimativa.

Em julho, houve um dia útil a menos por causa dos jogos do Brasil, mas a ausência de feriados levou o terceiro trimestre a ter 10,2% dias trabalhados a mais do que o trimestre anterior, comenta o economista. "Não fosse essa influência, o mais provável seria variação próxima a zero do PIB no período."

Para Borges, a atividade econômica no país continua estagnada, já que a alta de 0,7% vai apenas compensar a queda de 0,6% registrada no segundo trimestre.

Mariana Hauer, economista do Banco ABC Brasil, projeta avanço de 0,5% do PIB entre o segundo e o terceiro trimestres, feitos os ajustes sazonais, e também não vê mudança de tendência. "O investimento segue fraco, diante do quadro de incerteza com as eleições, e a indústria ainda sofre com estoques elevados", diz. Para Mariana, indicadores disponíveis sinalizam para recuperação da produção industrial em julho e agosto, mas o PIB do setor não deve voltar a crescer por causa da herança estatística negativa.

As associações industriais também relatam baixo otimismo. Levantamento feito pela Abit, que reúne empresas do setor têxtil, mostra que 45,8% dos associados projetam que a produção deve ficar estável em setembro e outubro, enquanto 36,9% esperam atividade mais baixa do que planejado. Apenas 20% disseram que estão produzindo mais do que o antecipado. "As lojas estão adiando as compras e as encomendas para o Natal ainda não começaram", diz Rafael Cervone, presidente da associação. Anteriormente, a Abit trabalhava com possibilidade de empatar com o ano passado, mas revisou a estimativa para queda de até 3% da produção neste ano.

No ramo de materiais de construção, 49% dos empresários afirmam que as vendas ficaram estáveis em setembro e devem permanecer estagnadas em outubro. A pesquisa, que será divulgada hoje pela Abramat, mostra que a parcela de empresários que via melhora das vendas caiu de 37% em setembro para 31% em outubro.

No mesmo sentido, o Índice Gerente de Compras (PMI, na sigla em inglês) da Indústria, calculado pelo HSBC, mostrou retração de 50,2 pontos para 49,3 pontos. Leituras abaixo de 50 pontos indicam retração do setor.

O gerente do departamento econômico da Abinee, que reúne fabricantes de material elétrico e eletrônico, Cezar Rochel, espera queda da produção em setembro, após um agosto considerado fraco, e vê piora especialmente nos segmentos ligados a investimentos industriais e no setor elétrico.

"O investimento está paralisado com o clima de incerteza, a preocupação com as novidades que podem vir da política econômica, e isso está trazendo bastante desconforto ao setor industrial", diz. Passadas as eleições, o quadro pode ficar um pouco mais "animador", a depender do que for anunciado pelo ganhador. "O problema é que os ajustes necessários têm custo em termos de crescimento", diz.

No atual ambiente, os setores mais ligados ao consumo de bens não duráveis têm mostrado comportamento melhor. Pouco menos da metade expedição de papel ondulado, que subiu 1,1% em agosto, vai para o setor de alimentos, explica o presidente da associação dos fabricantes, Rodrigo Panico. A expectativa do empresário é que o semestre termine com avanço de 8% da expedição em relação à primeira metade do ano.

O varejo, por enquanto, dá sinais modestos de recuperação. Em setembro, a intenção de consumo das famílias subiu 0,9% em relação a agosto, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC). Juliana Serapio, assessora da confederação, pondera que, se somados os avanços do indicador nos últimos três meses, a alta é de apenas 1% em relação a junho e não representa recuperação do poder de compra das famílias.

Fonte: Valor Econômico