Copa piora cenário para balanços no 2º trimestre.

21/07/2014

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As dificuldades encontradas pelo Brasil dentro de campo na Copa do Mundo devem se repetir fora dele nos resultados das empresas abertas, que começam a ser divulgados hoje. O menor número de dias úteis por conta do Mundial tende a complicar ainda mais o desafio de driblar o cenário de atividade fraca e inflação pressionada. "Em momentos de economia menos combalida, o segundo trimestre é mais forte que o primeiro, mas neste ano isso não deve acontecer", afirma Karina Freitas, da corretora Concórdia.

A queda de 2,67% na cotação do dólar no trimestre deve trazer algum alívio, já que as dívidas em moeda estrangeira são corrigidas pela cotação da divisa americana e a diferença será contabilizada como receita financeira. O efeito tende a ser relevante na comparação anual, já que, entre abril e junho do ano passado, o dólar se valorizou 10% em relação ao real, com impacto negativo sobre o lucro.

Do lado operacional, no entanto, a expectativa é de resultados mais fracos. Mesmo as exportadoras, que vinham se destacando em relação às empresas mais voltadas ao mercado doméstico, tiveram um trimestre mais difícil. Analistas também apontam que iniciativas para gerar eficiência, via cortes de custos ou venda de ativos, também tendem a perder fôlego. "O movimento começou há mais de um ano e hoje há muito menos gordura para queimar", avalia Karina.

Nesse cenário, a lista dos setores que devem mostrar resultados fracos supera aqueles que devem ter passado por um bom trimestre. A expectativa positiva se concentra em setores com receitas indexadas à inflação, como o de energia elétrica e de empresas de educação. Para o restante da economia, as previsões mais positivas têm se focado muito mais na execução de estratégias que preservem valor em momentos mais delicados da economia do que numa tendência de recuperação geral.

É o caso do varejo têxtil. Entre analistas, é consenso que o setor será um dos mais prejudicados pela redução da atividade gerada pela Copa do Mundo. No entanto, a maior parte deles aposta em bons resultados da Renner, com crescimento de cerca de 6% a 8% nas vendas "mesmas lojas", abertas há mais de um ano, por conta da coleção acertada de inverno, além de ganhos de margens gerados por redução de custos. Na outra ponta, a expectativa é de queda para o indicador "mesmas lojas" de Hering e Lojas Marisa.

A expectativa é melhor para empresas de itens considerados essenciais, como Pão de Açúcar e Lojas Americanas, que sofrem menos com a desaceleração do consumo. Além disso, o efeito calendário da Páscoa, que caiu em abril neste ano, deve melhorar os resultados na comparação anual. Na avaliação do HSBC, essas empresas estão ainda entre as poucas do segmento que devem ser beneficiadas pela Copa do Mundo, com aumento da venda de cervejas, itens temáticos e produtos de churrasco.

Prévia operacional divulgada pelo Pão de Açúcar mostra que a receita do grupo cresceu 13,4% no segundo trimestre frente a um ano antes, para R$ 15,2 bilhões. O número foi impulsionado principalmente pela área alimentar, que viu avanço de 14,5% no faturamento líquido. Já as vendas da Via Varejo, dona da Casas Bahia e do Ponto Frio, cresceram 8%, sinalizando uma expectativa de expansão mais moderada desse segmento. A previsão é que as varejistas de eletroeletrônicos tenham margens mais apertadas, já que as vendas de televisores, que costumam aumentar durante a Copa, foram piores que o esperado, o que levou a promoções para queima de estoque.

A queda na atividade industrial, provocada em boa parte por conta do Mundial de seleções, também piorou o cenário para as siderúrgicas. Além da queda na demanda por conta do tombo de mais de 12% nas vendas de automóveis no trimestre, o câmbio mais forte fez com que reajustes de preço anunciados no início do ano não vingassem totalmente, explicam analistas.

Victor Penna, do BB Investimentos, afirma que, apesar de tradicionalmente o segundo trimestre ser o melhor de todo o ano, em 2014 não há sinais que apontem para melhora nos volumes de venda em relação aos três primeiros meses. "Está cada vez mais difícil para as companhias reajustarem os preços, ainda mais com o volume de importados aumentando", explica. Só em junho, as compras de aço estrangeiro cresceram 34,6% frente a maio. Com isso, alguns analistas já temem que as siderúrgicas tenham que dar descontos a seus clientes para não perdê-los.

A expectativa é um pouco mais positiva para a Gerdau, cujas receitas geradas na América do Norte respondem por cerca de 30% do total. Para o Credit Suisse, a recuperação do negócio nos Estados Unidos deve melhorar as margens no trimestre. A previsão de analistas é que o crescimento chegue a dois dígitos no volume de aço vendido por lá.

Já para Usiminas, a contínua eficiência na gestão da companhia pode continuar ajudando. Porém, os especialistas alertam para um fôlego cada vez menor na eficácia dos cortes de custos, especialmente por conta da ociosidade das fábricas causada pela baixa demanda. Num cenário de tempestade perfeita, até mesmo a divisão de minério de ferro da mineira e da concorrente CSN deve vir pior, com queda de preços e alta nos custos com carvão.

Para o setor industrial, a perspectiva também não é animadora. A queda na venda de automóveis e bens duráveis e a redução da atividade das fábricas complicaram ainda mais a vida de fabricantes de autopeças e bens de capital. "Essas empresas vêm conseguindo fazer um bom trabalho de ganhos de margens, mas a tendência é que isso comece a perder fôlego", diz o analistas Danilo de Julio, da Concórdia.

A Randon, de implementos rodoviários, informou que sua receita caiu 10,6% em junho sobre um ano antes, para R$ 302,3 milhões. Para a Fundição Tupy, a equipe de analistas do J. Safra estima recuo de 2% no faturamento, para R$ 780 milhões, com margens afetadas negativamente pelo volume ruim. "O desempenho fraco do mercado doméstico deve ofuscar as melhoras no mercado internacional", afirmaram os analistas do banco em relatório enviado a clientes.

Sem novos reajustes dos combustíveis, a também Petrobras deve continuar a sentir a pressão de sua área de abastecimento. Com a alta do dólar frente do real na comparação anual e o avanço de 7,1% no preço do petróleo Brent, a defasagem da gasolina e do diesel em relação aos preços internacionais deve continuar a pesar sobre o resultado operacional da estatal, que absorve essa diferença.

Além disso, a comparação anual deve ser prejudicada pela venda de ativos na África para o banco BTG Pactual, que engordou o balanço do segundo trimestre de 2013 em quase R$ 2 bilhões. Do lado positivo, o segundo trimestre foi o primeiro em muito tempo no qual a companhia conseguiu acelerar o crescimento de sua produção de petróleo - o que pode se traduzir em receitas mais elevadas. Entre abril e junho, a média foi de 1,97 milhão de barris diários de petróleo e gás natural liquefeito (GNL) extraídos no Brasil, 2,1% a mais do que nos mesmos meses de 2013.

Entre os poucos destaques positivos da temporada, o setor de energia elétrica deve voltar a repetir o bom desempenho do começo do ano. Além de ter as receitas indexadas à inflação, o preço elevado da energia no mercado de curto prazo deve voltar a favorecer o balanço das geradoras, afirma Karina, da Concórdia.

Fonte: Valor Econômico