Crédito livre encolhe em termos reais.

27/08/2014

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Sem o efeito da inflação, a face real do desempenho do crédito mostra com clareza a fadiga de algumas das principais linhas de financiamento do país. Considerando apenas o crédito com recursos livres, houve uma queda real de 1,4% no estoque, na comparação com julho de 2013, ante recuo de 1% em junho. No mesmo mês do ano passado, o crédito livre crescia a um ritmo anual de 2,7%.

É o terceiro mês consecutivo de decréscimo dos empréstimos livres, que englobam linhas como financiamento de veículos, consignado, capital de giro e desconto de duplicatas.


Já a expansão anual do estoque total em julho foi de 4,6%, ante 9,2% em julho de 2013 e 4,9% em junho, também em termos reais. Os cálculos são do Goldman Sachs. O avanço foi inteiramente puxado pelas operações com recursos direcionados, como o crédito imobiliário, rural e desembolsos do BNDES. Em 12 meses, o crédito direcionado cresceu 12,5% em julho, ante 19,1% em 2013 e 12,9% em junho.

Mesmo o crescimento nominal do saldo de crédito em julho, 11,4% ante o mesmo mês de 2013, foi a menor taxa anual desde 2004, pelos cálculos do Goldman Sachs.

"Julho foi um mês péssimo e acredito que não vá se repetir. Agosto já está melhor na maior parte das linhas", afirma o executivo de um grande banco de varejo, responsável por linhas de crédito a pessoa física. "Em veículos, por exemplo, minha média diária de desembolsos está 12% maior."

Em julho, os desembolsos para o financiamento de veículos subiram 0,2% ante mesmo mês do ano passado, para R$ 7,8 bilhões, ao passo que o estoque de crédito nessa linha acumula 4,5% de queda em 12 meses, a R$ 185,2 bilhões.

Como um todo, média diária de concessões para pessoa física, cresceu 8,8% em julho na comparação anual, ante 11,6% em junho. Desse avanço, 7,9 pontos foram de crédito direcionado. Na pessoa jurídica o avanço dos desembolsos foi de 1,9% em julho, ante 1,3% em junho. As contas são do Credit Suisse.

Para economistas, porém, a expectativa é de que o crédito mantenha a trajetória de desaceleração em 2014, mesmo depois de o governo ter anunciado, na semana passada, medidas de estímulo à oferta. "Os dados de julho corroboram as perspectivas de fraco crescimento do crédito durante este ano: esperamos desaceleração do ritmo de expansão atual, embora este já esteja inferior aos 12%", escrevem economistas do Banco Fator, em relatório a clientes.

O BC espera um avanço nominal de 12% no estoque total de crédito neste ano, projeção já reduzida ante os 13% que estimava no começo de 2014.

"As recentes medidas anunciadas pelo BC, que alteraram as exigências de reservas dos bancos, podem impedir um declínio acentuado dos empréstimos bancários na segunda metade de 2014, particularmente nas linhas relacionadas a empresas e a financiamento de veículos", escreveram analistas do Credit Suisse. "Contudo, o crescimento lamentável do PIB, um aumento menos favorável da renda real e baixos níveis de confiança na economia devem manter o crescimento dos empréstimos bancários baixo nos próximos vários trimestres."

Analistas do Goldman Sachs fazem avaliação semelhante. Em relatório, afirmam que a percepção mais acentuada de risco macroeconômico e de aumento de desemprego está secando tanto a oferta quanto a demanda por financiamento. "Neste pano de fundo, bancos privados estão ficando mais conservadores e seletivos na originação de crédito novo", escrevem.

A economista Thaís Zara, da Rosenberg Consultores Associados, afirma não esperar uma alteração substancial no desempenho do crédito livre. "Se a trajetória de queda [em termos reais] for estacanda, as medidas já terão sido bem sucedidas", escreve em nota a clientes. "A perspectiva de crescimento real do crédito continua comprometida, a despeito das medidas recentemente tomadas pelo BC para destravar o mercado."

Além de segurar o desempenho do crédito, a expectativa dos economistas é de que o cenário econômico ruim pressione a taxa de calotes, em especial em 2015. Essa é a percepção do time do Credit Suisse, que pondera que a mudança da composição das carteiras de crédito dos bancos deve manter o indicador estável neste ano. O Credit destacou a melhora de 40 pontos-base no índice de atrasos entre 15 e 90 dias no crédito às famílias em julho, para 6,2%, ante uma expectativa sazonal de melhora de 7 pontos-base.

Fonte: Valor Econômico