Crise russa deve agravar queda das exportações brasileiras.

17/12/2014
Monica Baumgarten de Bolle, da Galanto: impacto sobre as exportações brasileiras de carnes e na recuperação europeia

Veja Também

A forte queda dos preços das commodities derrubou as exportações dos principais mercados emergentes nos últimos meses, entre eles o Brasil, situação que deve ser agravada pela crise na Rússia, avaliam economistas. De acordo com cálculos da Capital Economics, a média móvel trimestral das exportações dos países latino-americanos caíram 2,7% no trimestre encerrado em outubro, em relação a igual período de 2013. Nos emergentes europeus, a queda foi de 4,4% e na África e no Oriente Médio, 1,1%.

No Brasil, as exportações no período foram 16% menores. Para economistas, os efeitos diretos e indiretos da crise russa sobre a economia doméstica e a valorização do dólar em relação a maioria das moedas globais colocam em risco a perspectiva de algum aumento da demanda externa por produtos brasileiros em 2015. Na melhor das hipóteses, dizem, o setor externo terá contribuição nula para a economia brasileira no ano que vem, mesmo com a retomada da atividade nos Estados Unidos.

Os problemas enfrentados pela economia russa, que já vinham se acumulando com as sanções econômicas impostas por EUA e União Europeia diante dos conflitos na Ucrânia, tomaram proporções maiores com a forte queda do petróleo a partir do fim de outubro. Com o barril mais barato nos mercados internacionais, o rublo teve forte desvalorização, mesmo com uso de reservas e flexibilização do regime de câmbio pelo BC russo. Para Monica Baumgarten de Bolle, sócia da Galanto Consultoria, a crise, que já parecia inevitável na última semana, tomou contornos mais problemáticos com a decisão do Banco Central de implementar um choque nos juros, com aumento da taxa de 10,5% para 17% ao ano na segunda-feira.

Para Monica, o enfraquecimento da economia russa deve ter reflexos visíveis sobre o Brasil. De um lado, há a perspectiva de redução das exportações de carnes brasileiras, que ganharam relevância nos últimos meses com o embargo.

Além do efeito sobre as vendas externas, a situação na Rússia torna mais remota a recuperação da economia europeia, diz Welber Barral, ex-secretário de comércio exterior e consultor da Barral M Jorge. Há seis meses, diz, a expectativa era de que os países europeus tivessem alguma retomada a partir de 2015. "Claro que não se esperava nada de estrondoso, mas a avaliação era de que seria ao menos o início de uma aceleração pequena e lenta. Agora, com a crise da Rússia, mesmo essa pequena recuperação fica remota."

Para José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), o cenário europeu, a partir do agravamento da crise russa, é uma incógnita adicional dentro das incertezas que rondam o comércio exterior em 2015.

A avaliação, diz Castro, é que a já combalida importação russa sofra ainda mais no ano que vem. De janeiro a setembro, a importação da Rússia caiu 6,3% contra iguais meses do ano passado. No mesmo período, a importação global cresceu 2%. Em outubro, contra igual mês de 2013, a importação russa caiu ainda mais, em 12,4%. Os dados são da Organização Mundial do Comércio (OMC), que reúne informações de 70 economias responsáveis por 90% do comércio mundial.

A demanda em queda dos russos também não deve ser compensada por outros países. Barral avalia que a expectativa será mantida em relação à reação dos Estados Unidos, mas a avaliação, porém, é que a recuperação americana continuará lenta. Ao mesmo tempo, a economia chinesa deve seguir crescendo, mas ainda em desaceleração, diz.

Há ainda a perspectiva de contágio financeiro, comenta Monica, da Galanto. "Um grande país emergente entrando em convulsão está longe de ser um cenário confortável", afirma a economista, lembrando que a Rússia também dispõe de elevados volumes de reservas cambiais, o que não foi suficiente para conter forte desvalorização do rublo. "O mesmo tipo de avaliação pode ser feito sobre o Brasil, de que reservas não são suficientes", diz a economista. Ontem, o dólar encerrou o dia em R$ 2,73, maior patamar desde 2005.

A desvalorização, diz Barral, é um ponto favorável para o manufaturado brasileiro, mas talvez não seja suficiente para alavancar exportações, já que há um movimento geral de outros países também com depreciação cambial. Outro entrave é que o mercado latino-americano também deve perder receita de exportação por conta da queda de preços de commodities.

Para Carlos Thadeu de Freitas Jr, economista da Franklin Templeton, os três fatores que influenciam os preços de matérias-primas estão contribuindo para a derrubada das cotações desses produtos, sem perspectiva de reversão desse movimento no curto prazo. Com a desaceleração da economia chinesa e menor crescimento dos demais países emergentes, a demanda por commodities vem caindo. A oferta, por outro lado, segue firme, com boas safras de grãos esperadas neste ano nos Estados Unidos e manutenção do nível de produção de petróleo. Por último, a normalização da política monetária nos EUA tem motivado um forte movimento de valorização do dólar contra as demais divisas globais, o que diminui o poder de compra dos outros países e a demanda por commodities.

O economista projeta alta de cerca de 0,2% do PIB brasileiro no próximo ano. "Temos ajuste fiscal, commodities em queda, piora dos termos de troca, então não há nada que me faça acreditar em um ano mais positivo".

Monica avalia que a crise na Rússia e a queda das commodities devem levar, em algum momento, a uma nova rodada de revisão de projeções para a economia em 2015. Segundo o último boletim Focus, os analistas de mercado projetam alta de 0,7% do PIB em 2015. "Não acho que estamos falando de recessão, mas deve haver alguma piora", diz.

Fonte: Valor Econômico