Efeito Marina' anima investidor.

28/08/2014

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O mercado financeiro embarcou em uma onda de forte entusiasmo, movido pela perspectiva de liquidez farta no mundo e pelo aumento das chances de uma troca de governo no Brasil. Com os juros das economias desenvolvidas caindo a mínimas históricas, investidores globais reforçam a busca por melhores oportunidades de retorno - quesito no qual a economia brasileira se destaca.

Ao mesmo tempo, as pesquisas eleitorais apontando a candidata à Presidência Marina Silva (PSB) como a favorita em um eventual segundo turno, sustentam apostas no esperado ajuste da economia - que inclui política fiscal mais austera e menor intervenção em estatais e no câmbio -, o que abriria espaço para um alívio nos juros ao longo do tempo. Combinados, esses elementos justificam a disparada do Ibovespa para os 61 mil pontos e a queda do dólar abaixo de R$ 2,25.

Para o economista-chefe do Barclays para América Latina, Marcelo Salomon, o avanço de Marina nas pesquisas é visto como positivo pelo estrangeiros, que comparam a possibilidade de mudança para um governo mais pró-mercado como o que se viu na Índia e na Indonésia, o que pode aumentar o fluxo de recurso para o Brasil.

Salomon destaca que o aumento do fluxo para investimentos em portfólio já está em curso e que há espaço para alta da bolsa e queda maior das taxas de juros futuros, além de menos espaço para valorização do câmbio.

Ontem, os juros futuros derreteram, sendo que os vencimentos mais longos passaram a operar em níveis levemente inferiores aos de médio prazo (veja o gráfico), o que não ocorria desde 31 de agosto de 2011, data em que o Comitê de Política Monetária (Copom) iniciou o inesperado ciclo de alívio monetário.

"É o efeito Conselho de Responsabilidade Fiscal e BC autônomo da Marina na veia", resume Vitor Péricles Carvalho, da Laic-HFM Gestão de Recursos. "A mudança nos juros mostra que a expectativa é de que seja possível trabalhar com juro real menor no médio prazo", diz Luiz Eduardo Portella, sócio e gestor do Modal Asset.

O pano de fundo para o viés positivo é uma clara onda de queda de juros no mundo, resultado das indicações de que o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco do Japão (BoJ) podem flexibilizar ainda mais suas políticas monetárias para fazer frente ao quadro de fraqueza econômica. Essa possibilidade jogou para a mínima história o juro dos títulos do Tesouro alemão de 10 anos, de 0,90%.

Como consequência, o retorno do título do Tesouro americano (Treasuries) de 10 anos caiu para 2,363%. Por ser a referência para os mercados de renda fixa globais, a queda do juro dos Treasuries de 10 anos alimenta uma realocação de portfólio mundo afora, que tem como consequência a forte queda dos juros em diferentes praças. No México, o bônus de cinco anos cedeu de 4,73% para 4,64%; na Turquia, de 9% para 8,86%; e, na Índia, de 8,632% para 8,619%.

Isso ocorre a despeito do crescente debate em torno do "timing" do início da alta dos juros americanos. "Está crescendo a visão de que os estímulos que podem ser concedidos pelo BCE e pelo BC japonês devem amenizar os efeitos de um aumento de juros nos Estados Unidos", diz um gestor que prefere não ser identificado.

Um operador lembra que a bolsa brasileira também tira proveito do excesso de liquidez global, que vem impulsionando as bolsas emergentes em todo o mundo. "Essa alta recente não é exclusividade do Brasil. Se você olhar Tailândia, Turquia, todas estão subindo. É claro que aqui existe o pretexto das eleições, mas há um cenário externo favorável."

Enquanto o Ibovespa acumula alta de 18,3% neste ano, a bolsa da Tailândia sobe 20,5%, Turquia ganha 18,5%, Indonésia avança 20,8%, Índia tem alta de 25,6%, China mostra avanço de 14,3%. A bolsa do México sobe menos, apenas 6,7%, enquanto a Rússia perde 12,6% em 2014, em função da crise com a Ucrânia.

O ingresso de recursos externos no Brasil levou, em julho, a participação dos estrangeiros a um novo recorde de 18,52% do total da dívida mobiliária. Como consequência, as taxas dos títulos públicos longos cederam. O juro da NTN-B para 2050, indexado ao IPCA, cedeu para baixo de 5,68%, depois de ter alcançado patamares superiores a 6,20% há pouco menos de um mês. Agentes são unânimes em afirmar que isso reflete a melhora de humor por aqui.

Fonte: Valor Econômico