Empresas ligadas ao campo têm queda na bolsa

08/01/2015

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Unidade da JBS em Lins (SP); empresa teve valorização de 29,03% na bolsa (Foto: Dario Lopez-Mills / File/AP)

As ações das empresas do agronegócio não saíram ilesas da forte desvalorização que marcou os preços das commodities agrícolas em 2014. Das 13 principais companhias do segmento listadas na BM&FBovespa, apenas quatro - Marfrig, BRF, JBS e São Martinho - viram seus papéis se valorizarem no ano, conforme levantamento do Valor Data. A agenda eleitoral também deu sua contribuição para o pessimismo generalizado na bolsa paulista, afetando sobretudo as companhias que produzem etanol. Pesou ainda a forte desvalorização das ações da Petrobras.

Entre as empresas do agronegócio, os frigoríficos destoaram e se destacaram positivamente. O acionista da Marfrig foi o que mais teve motivos para comemorar no acumulado do ano. As ações da empresa de carnes subiram 52,50% de janeiro a dezembro de 2014. O segundo melhor desempenho veio da BRF, cujos papéis se valorizaram 30,94% no período. Já a JBS, maior empresa de proteína animal do mundo, viu as ações subirem 29,03%. No setor frigorífico, a Minerva Foods não conseguiu acompanhar seus pares, e os papéis caíram 13,91% em 2014.

Na avaliação de Luciana Carvalho, analista do Banco do Brasil, o desempenho dos frigoríficos na bolsa foi impulsionado pela queda do real perante o dólar. A condição favorece as exportações de carnes do Brasil e também se reflete de forma bastante positiva no faturamento das operações dessas companhias no exterior - casos da JBS e Marfrig.

Mais competitiva com a ajuda do câmbio, a carne brasileira se beneficiou ainda de uma demanda externa mais aquecida, segundo a analista, de forma que os embarques de carne bovina bateram recorde mais uma vez em 2014. Diferentemente do que ocorreu com as empresas que detêm produção agrícola (ver Preços baixos dos grãos afetam companhias agrícolas), a queda das cotações dos grãos no mercado internacional jogou a favor das ações das companhias que produzem carne de frango e suína, como JBS, BRF e Marfrig. Isso porque significaram custos mais baixos de ração animal.

Internamente, os frigoríficos também passaram por reestruturações que agradaram aos acionistas. O caso mais notável é o da Marfrig, que foi a segunda maior alta do Ibovespa em 2014. A empresa, que vinha sendo castigada pelos investidores devido ao elevado endividamento, conseguiu gerar fluxo de caixa positivo e alongar o perfil de sua dívida, bem como reduzir despesas na divisão de carne bovina no Brasil. Com isso, reduziu seu prejuízo nos primeiros nove meses do ano.

No caso da JBS, a reestruturação passou pela Seara Brasil, adquirida da concorrente Marfrig em 2013 e que hoje faz parte da subsidiária JBS Foods. Nessa reorganização, a empresa conseguiu uma forte elevação de margens da subsidiária, o que beneficiou as ações. Já na BRF, a reestruturação capitaneada pela gestão do empresário Abilio Diniz no conselho de administração também se traduziu em resultados melhores, o que se refletiu no valor dos papéis.

Único frigorífico cujas ações tiveram queda no ano passado, a Minerva Foods ainda não colheu todos os efeitos das aquisições feitas em 2014, sobretudo das duas unidades de bovinos da BRF, na visão da analista do Banco do Brasil. "Os investidores ainda estão aguardando esses resultados", disse. Ela acrescentou que a companhia foi influenciada também pelo humor do mercado em geral e pela alta do gado, que é fator de pressão nas margens. Entre os frigoríficos, a Minerva é a única que só produz carne bovina. 

No setor sucroalcooleiro, apenas a São Martinho se destacou positivamente. Seus papéis subiram 27,55% em 2014, enquanto Tereos Internacional, Cosan e Biosev ficaram mais suscetíveis às cotações ainda mais baixas do açúcar e ao efeito da reeleição de Dilma Rousseff, cujo mandato foi considerado altamente prejudicial ao setor, na medida em que foi marcado pelo represamento dos preços dos combustíveis no país.

Em setembro, quando as pesquisas chegaram a indicar a vitória da candidata pelo PSB Marina Silva ao pleito presidencial, os papéis da Biosev chegaram até a subir, fechando o mês em alta de 12,42%. Mas no consolidado anual, a empresa, controlada pela francesa Louis Dreyfus Commodities e a segunda maior produtora de açúcar e etanol do país, amargou uma indigesta queda de 27,5% no valor dos seus papéis.

A Cosan, que nos últimos anos diversificou seus negócio para distribuição de combustíveis, energia, infraestrutura e logística, tem na operação sucroalcooleira sua maior exposição à volatilidade. Em agosto, com a morte do presidenciável Eduardo Campos (PSB) e o início da ascensão de Marina Silva, os papéis chegaram a bater R$ 48, bem acima dos níveis atuais de R$ 27.

No entanto, com a vitória de Dilma, o mercado entendeu, segundo especialistas, que não havia sinais de mudanças estruturais no setor de etanol, o que desencadeou um movimento de retirada dos investidores. No acumulado de 2014, as ações da Cosan caíram 16,91%. É preciso observar que, até setembro, no entanto, os papéis da companhia acumulavam valorização de 0,37%.

A reeleição da petista também afetou o desempenho da Tereos, que detém operações de açúcar e etanol e amidos no Brasil, na Europa e na Ásia. Até setembro, as ações acumulavam alta de 5,28%, mas no consolidado de 2014, registraram queda de 42,68%. "É preciso destacar que nossas ações têm pouca liquidez, o que faz com que a movimentação de um pequeno número de papéis signifique uma grande alteração em termos percentuais", explicou o diretor de relações com investidores da Tereos, Marcus Thieme.

Além do fator eleição, o desempenho das sucroalcooleiras na bolsa foi impactado pela forte estiagem que reduziu a produtividade dos canaviais em São Paulo e pelas cotações do açúcar, que ficaram 7% mais baixas em 2014, após sucessivas depreciações nos últimos dois anos.

No caso da Cosan, também pesaram as incertezas trazidas pela reestruturação dos seus negócios, marcada pela separação (spin-off) dos ativos de logística e de gás em outras duas empresas diferentes. Até a conclusão dessas operações, que depende do aval de órgãos reguladores, as ações tendem a patinar.

Fonte: http://www.iicabr.iica.org.br/