Espaço para crédito mais caro.

22/09/2014

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A manutenção da Selic em patamar mais alto e uma concorrência menos acirrada de parte dos bancos públicos têm dado às instituições financeiras mais espaço para elevar as taxas cobradas nas operações de crédito. Com esse cenário, a expectativa de analistas e de executivos de bancos é que as grandes instituições ainda consigam ampliar, nos próximos trimestres, a chamada margem líquida de juros, que compreende a diferença entre as receitas com operações de crédito e o custo de captação, deduzidas ainda despesas com provisão para devedores duvidosos.

De julho de 2013 a julho deste ano, dados do Banco Central mostram que a taxa média de juros do crédito passou de 19,09% para 21,36% ao ano, enquanto o spread médio passou de 11,4 pontos para 13,05 pontos percentuais.

Estudo do UBS mostra o efeito dessa redefinição de preços sobre a margem líquida dos bancos. O levantamento aponta que a margem líquida agregada em valores percentuais de Itaú Unibanco, Bradesco e Banco do Brasil subiu 38 pontos base entre o primeiro e segundo trimestre, de 6,42% para 6,80%, como reflexo deste movimento. Para os próximos quatro trimestres, os analistas ainda esperam avanço de mais 46 pontos base para os três bancos, sendo o maior avanço no Itaú.

A definição do cenário político também pode ter desdobramentos para as taxas de juros cobradas pelos bancos. Segundo o executivo de um grande banco, as instituições estão com o dedo no gatilho e podem recalibrar para cima o custo dos empréstimos se houver a percepção de que o novo governo - seja ele qual for - promoverá um aperto monetário maior em 2015. Nesse caso, para evitar um descasamento entre o custo de captação futuro, que é majoritariamente pós-fixado, com as taxas cobradas dos clientes, em sua maioria prefixadas, os bancos tenderiam a se antecipar e iniciar uma nova rodada de elevação dos juros já no quarto trimestre deste ano.

O UBS indica a desaceleração dos bancos públicos no crédito como um dos principais fatores que permite a elevação das taxas e da margem dos demais. Segundo dados do BC, em junho de 2013, a expansão anual das carteiras de crédito dos públicos era de 29,3% ante 5,7% nos privados. Um ano depois, em junho de 2014, a taxa de crescimento caiu para 17,1%, enquanto os privados ampliaram seu portfólio em 6,4%.

Apesar de reduzirem o ritmo de desembolsos, os bancos públicos têm aumentado os spreads, o que abre espaço para os privados seguirem o mesmo caminho, depois de anos de competição acirrada.

O Credit Suisse elevou a perspectiva para a ação do BB, considerando como ponto de maior benefício o fato de a instituição estar elevando spreads. "Estimamos que o efeito da reprecificação adicionará cerca de R$ 6,6 bilhões à margem financeira bruta quando todo o portfólio estiver totalmente reprecificado." No primeiro semestre, a margem bruta (diferença entre o custo de captação a receita com empréstimos) do banco somou R$ 24,183 bilhões, com alta de 7,2%, mas a margem líquida em valores absolutos - após as provisões - foi de R$ 15,426 bilhões, com alta mais tímida, de 2,4%.

Se esse movimento persistir, as grandes instituições privadas têm o caminho livre para continuar a aumentar o custo do crédito. Com isso, segundo o UBS, a margem líquida do Itaú, considerando a média de ativos do banco, passaria de 4,97% ao fim de 2013 para 5,09% ao fim de 2014 e 5,51% em 2015, enquanto no Bradesco, a escalada seria de 4,84% para 4,99% e 5,14%.

Também podem colaborar para a margem, de forma limitada, as recentes medidas do BC que permitem o uso do depósito compulsório em algumas linhas que os bancos estavam evitando - como o financiamentos de veículos. "Isso abre espaço para que essas carteiras, que têm um spread um pouco maior, cresçam de uma forma mais significativa no segundo semestre, com benefício para a margem", diz a analista da Concórdia Karina Sanches.

A perspectiva de elevar o preço das operações de crédito também ganha força por conta da manutenção da taxa Selic em 11% e da possibilidade de que ela possa subir um pouco mais em 2015. Se não houver pressões do governo para redução de spreads ou mesmo uma mudança de postura dos bancos públicos, é possível que a margem líquida de juros dos bancos fique em um patamar mais elevado.

Há riscos, porém, que podem pressionar as margens dos bancos. O analista da Moody's Alexandre Albuquerque alerta que a expansão dos ganhos pode ser limitada por causa do cenário econômico fragilizado, em que os bancos estão mais cautelosos na originação e as carteiras crescem menos.

Segundo o executivo de um grande banco ouvido pelo Valor, mesmo que as taxas de juro cobradas dos clientes parem de subir daqui para frente, as margens das instituições devem melhorar nos próximos trimestres. Isso será uma consequência, diz ele, do processo de troca da carteira de crédito "velha", originada com juros menores, quando a Selic estava em 7,25% ao ano, pela carteira "nova", com as taxas em novo patamar.

Pela projeção de um executivo de um outro grande banco, o reajuste para cima da margem de crédito ainda deve acontecer pelos próximos dois trimestres. Enquanto operações de cartão de crédito e cheque especial foram integralmente corrigidas, ainda há no estoque empréstimos concedidos a empresas, por exemplo, a um spread menor do que aquele praticado atualmente. Esse diretor avalia, porém, que no geral as taxas cobradas hoje nos novos desembolsos já não deixam muito espaço para mais reajustes. (Colaborou Carolina Mandl)

Fonte: Valor Econômico