Estudo analisa setores que mais puxam a atividade em outras áreas da economia.

28/10/2014
Nelson Marconi, da FGV-SP: "Estamos mostrando que os impactos que os setores têm na economia são distintos".

Veja Também

Os setores de alimentos e bebidas, equipamentos de transporte (incluindo fabricação de automóveis e aeronaves), petróleo, produtos químicos e têxtil e calçados estão entre os que mais possuem efeitos encadeadores para trás na economia do país. O aumento de produção nesses ramos puxa a produção de outros setores, que lhe fornecem insumos básicos e intermediários, havendo um efeito dinâmico em cadeia, afirma estudo elaborado por Nelson Marconi, professor da FGV-SP, e por dois pesquisadores da Universidade de Cambridge, Igor Rocha e Guilherme Magacho.

A análise, segundo Marconi, contribui para o debate sobre quais setores são, ou deveriam, ser prioritários para o crescimento e desenvolvimento da economia do país. Também contesta teses que ressaltam que o país poderia se direcionar mais intensivamente para a produção de bens primários - uma vez que tem abundância de recursos naturais -, abrindo mão, de certa forma, de sua indústria, sem que isso prejudicasse o seu crescimento e dinamismo. O trabalho também e contrapõe àqueles que defendem que é possível ter dinamismo em uma economia muito baseada no setor de serviços.

A pesquisa foi feita a partir de cálculos em cima da matriz insumo-produto apurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O estudo criou 18 grupos de setores a partir de 55 ramos diferentes. Ao usar esse tipo de estatística, os economistas acreditam que investigam o papel de um setor produtivo sem restringir a análise apenas aos efeitos diretos na economia - geração de produção, emprego, valor adicionado, impostos e exportação. Com esse tipo de análise, é possível investigar os efeitos indiretos, gerados pelas interferências que cada setor possui, ou não, sobre outros setores da economia.

Os dados formam um retrato da primeira década dos anos 2000, baseando-se em informações estatísticas desse período, sendo 2009 o último ano de dados disponíveis. Não foi feita uma comparação com a década de 90 por haver diferenças na base estatística do IBGE na questão dos setores analisados.

A pesquisa contribui também para o debate sobre as interpretações de que o país poderia apostar menos em alguns setores industriais intensivos em mão de obra, porque não haveria mais competitividade nesses segmentos, como é o caso de têxtil e calçados, em razão da concorrência chinesa.

No caso dos calçados e têxtil, que aparecem entre os líderes em efeitos para trás, Marconi ressalta que não são setores tecnologicamente avançados, mas, como o estudo apontou, geram muitos encadeamentos para trás. Isso é uma característica importante e que aparece como adicional ao fato de ser um setor também relevante na criação de empregos.

"Não estamos dizendo para deixarmos de exportar primários, temos que aproveitar isso, mas estamos dizendo que temos que tentar transformar os primários em produtos de maior valor agregado", diz Marconi. "Ter uma estratégia de crescimento do país baseada nos primários [na sua produção e exportação] não vai gerar os mesmos efeitos sobre a economia do que se você tiver uma estratégia baseada na indústria", afirmou.

Entre os melhores setores nos encadeamentos tanto para frente como para trás estão petróleo (extração e refino), produtos químicos e commodities minerais. Já entre os piores tanto em encadeamentos para trás como para frente estão diversos ramos do setor de serviços, comércio e construção. Entre aqueles que têm apenas bons encadeamentos para frente estão os serviços mais modernos e os vinculados ao setor industrial, o ramo de commodities agrícolas e o de serviços públicos.

Não ter fortes encadeamentos para trás significa que um aumento da demanda desses setores não trará grandes efeitos nos demais na economia nacional. Sobre os ramos que possuem apenas encadeamentos para frente, Marconi explica que isso significa que eles são dependentes do que ocorre em outros setores, o que é comum no ramo de serviços, por exemplo, que geralmente cresce quando a demanda da indústria aumenta.

"Estamos mostrando que os impactos que os setores têm na economia são distintos. Assim, ao ser prejudicado um determinado setor por uma certa política econômica, um gestor de políticas públicas vai ter que compensar isso", disse Marconi. A indústria de alimentos e bebidas, por exemplo, possui encadeamentos fortes para trás, e há vantagens comparativas porque trata-se de um setor que demanda commodities agrícolas, como café, leite, carne etc., uma produção em que o país é forte. E se trata também de um setor que é intensivo em mão de obra.

Por conta disso, explica o economista, se um gestor de políticas públicas decidir deixar quebrar setores como esse, no mínimo precisa saber de sua importância nos encadeamentos na economia e sua relevância na criação de empregos, de forma a pensar meios de compensar a redução da sua importância na economia.

Fonte: Valor Econômico