Etanol brasileiro perde espaço na Califórnia.

30/10/2014

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Estado mais "verde" dos Estados Unidos, a Califórnia dá sinais de que as vantagens econômicas concedidas ao etanol de cana-de-açúcar do Brasil podem ter vida curta. Esse mercado, que já pagou prêmios altos ao etanol brasileiro por valorizar seus benefícios ambientais, começa a criar condições para equiparar o etanol de milho aos mesmos níveis de baixa emissão de CO2 que eram exclusivos até então do biocombustível brasileiro.

As dúvidas sobre a condição brasileira de abastecer a demanda californiana nos próximos anos, somadas ao forte lobby da indústria de etanol de milho dos EUA, influenciaram o Conselho de Qualidade do Ar da Califórnia (CARB, na sigla em inglês) a propor a revisão de alguns critérios de medição dessa pontuação ambiental.


A revisão tende a beneficiar em cerca de 5 pontos o etanol de milho a partir de 2016. "Apesar de também melhorar a pontuação do produto brasileiro, o efeito prático disso é que tem sido possível cumprir o mandato na Califórnia com etanol de milho", diz o presidente da maior trading global de etanol, a Copersucar, Paulo Roberto de Souza.

A Califórnia estabeleceu a meta de reduzir em 10% as emissões de CO2 até 2020 (contados a partir de 2011). Mas, em vez de especificar o volume a ser misturado à gasolina ano a ano, como fazem outros Estados americanos, a Califórnia estabeleceu uma meta anual de redução de emissões, deixando para o mercado escolher como ela será cumprida - com etanol de cana, de milho ou biodiesel. Para isso, criou uma metodologia própria de classificação ambiental para cada combustível, que gera uma espécie de pontuação, conhecida como CI (Carbon Intensity).

Enquanto o CI da gasolina é de emissão de 99.18 gramas de CO2 equivalente por megajoule (MJ), o do etanol de milho americano é de 90.1 gramas e o do etanol de cana do Brasil pode variar de 58.4 a 71.3 gramas/MJ - a depender do nível de mecanização e de cogeração de energia elétrica da usina produtora.

Com essa melhor pontuação ambiental, o etanol de cana do Brasil passou a ser o preferido pelas misturadoras de combustíveis da Califórnia, já que, nesse caso, é preciso adicionar um volume menor de litros para cumprir a meta em relação ao etanol de milho. Por isso, elas vinham pagando prêmios elevados pelo etanol brasileiro. O pico foi alcançado em 2013, quando uma usina certificada do Brasil que exportava para a Califórnia chegou a obter uma remuneração R$ 242/m3 acima do que se tivesse vendido no mercado brasileiro e R$ 96 a mais do que se tivesse exportado, por exemplo, para outro Estado americano, como a Flórida. Em meados de 2013, verão americano, o etanol anidro na usina em São Paulo era negociado a R$ 1.300/m3.

Agora, além de as cotações do etanol americano estarem muito baixas nos Estados Unidos - o que torna o etanol de cana menos competitivo -, algumas usinas de etanol de milho vêm melhorando a pontuação ambiental na Califórnia. É o caso da gigante Pôet que obteve para uma de suas unidades um CI muito próximo ao do etanol de cana do Brasil, ao redor de 60 gramas/MJ, por ter incorporado inovações ambientais na planta. "Está chegando agora a oferta das usinas de etanol celulósico dos Estados Unidos. O etanol de cana não está mais sozinho", afirma o executivo da Copersucar, que controla nos Estados Unidos a trading de etanol Ecoenergy.

Neste ciclo 2014/15, o Brasil deverá exportar para a Califórnia metade das 363 milhões de litros que embarcou em 2013/14. Em 2015/16, esse volume deve se aproximar de zero, nas previsões da Copersucar. "O programa original da Califórnia indicava uma necessidade significativa de etanol de cana a partir de 2015 para cumprir o mandato. Com as novas discussões em andamento, essa necessidade surgiria apenas em 2018", avaliou Souza.

Há algumas semanas, o CARB consultou oficialmente a União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica), que representa as usinas do Centro-Sul do Brasil, sobre as condições de suprimento de etanol de cana nos próximos anos. O CARB estima uma demanda em 2020 para uma oferta de etanol do Brasil entre 3 bilhões e 6,6 bilhões de litros. O posicionamento da Unica, afirmou a entidade em nota, é que, "em havendo a demanda e os incentivos financeiros adequados, o setor no Brasil já demonstrou dinamismo suficiente para atender os volumes estimados".

O presidente da Copersucar explica que o encolhimento da produção de cana-de-açúcar no Brasil nas últimas safras vem influenciando as discussões na Califórnia. Há também o forte lobby das usinas de etanol de milho dos EUA.

Neste mês, o vice-presidente da associação que representa o setor (RFA), Geoff Cooper, publicou artigo no site da entidade no qual critica duramente a posição do CARB de achar que "o mercado será inundado de etanol de cana do Brasil".

Ele destacou a escassez de etanol no mercado brasileiro e afirmou que importações são economicamente pouco competitivas com o etanol de milho. "Em 2011, o CARB projetava que as misturadoras da Califórnia usariam em 2014 de 80 milhões a 400 milhões de galões de etanol de cana na gasolina (de 300 milhões e 1,5 bilhão de litros). Mas de janeiro a agosto deste ano, as importações foram de apenas 7,9 milhões de galões (29,9 milhões de litros)", afirmou.

Fonte: Valor Econômico