Exportações mundiais crescem, mas vendas externas do país caem.

27/10/2014
Lia Valls: preços afetam commodities e o embarque de manufaturados depende de vários fatores para reagir.

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Os dados parciais de comércio de 2014 mostram que a exportação brasileira caminha em sentido oposto ao do movimento internacional. No ano passado, a exportação mundial cresceu 2,2% em relação ao ano anterior. Os embarques brasileiros, porém, caíram 0,16% no período. Neste ano, no acumulado até agosto, a exportação mundial cresce 2,5% em relação a igual período do ano anterior enquanto a brasileira apresenta piora, com recuo de 1,7% na mesma comparação, segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC).

A comparação com o desempenho de países e blocos importantes no cenário internacional também não favorece o Brasil. De janeiro a agosto, a exportação dos Estados Unidos subiu 3,3% e a dos países da União Europeia, 3,7%, com elevação nos embarques internos ao bloco, embora com redução de 1,2% na venda aos países de fora. Os embarques chineses cresceram 3,8%.

Entre os vizinhos mais próximos, o Brasil não ficou sozinho na queda de exportações. Os embarques chilenos recuaram 0,3% enquanto a dos argentinos caíram 10,2%. A redução, porém, não foi a regra. Um pouco mais distante, mas com economia considerada em muitos aspectos comparável à do Brasil, o México teve crescimento de 4% nas exportações.

Para analistas, a pauta brasileira de exportação, dominada por commodities agrícolas e metálicas, explica parte do descompasso dos embarques brasileiros com os do mundo. O recuo dos valores de negociação das commodities se reflete nos preços de produtos básicos e semimanufaturados. As duas classes de produtos representam pouco mais de 60% do valor total exportado.

De janeiro a agosto, os preços médios dos produtos básicos caíram 5,9%. O recuo dos preços neutralizou parte importante do aumento de 10,1% no volume de embarque desse mesmo tipo de bem. Nos semimanufaturados a redução de preço médio foi de 4,8%, acompanhada de queda de 0,8% na quantidade embarcada.

Os básicos e semimanufaturados puxaram para baixo os preços médios das exportações totais que caíram 3,8% no período. A quantidade do total exportado aumentou somente 2,3%. A combinação de preço e quantidade resultou em alta de 1,7% no valor embarcado. Os cálculos de preço e volume são da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex).


Os dados do Ministério do Desenvolvimento (Mdic) mostram queda acentuada de preços das principais commodities exportadas pelo país também no período mais recente. O preço médio da soja até a terceira semana de outubro, por exemplo, caiu 10,8% em relação à média de igual mês do ano passado. Na mesma comparação o preço do minério de ferro caiu 37,8%. A soja e o minério de ferro representam um quarto do valor exportado hoje pelo Brasil.

Ao mesmo tempo em que é castigada pela queda de preços das commodities, a exportação de manufaturados depende de vários fatores para reagir, aponta a professora Lia Valls, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV). O efeito da crise da Argentina, diz ela, cria uma dificuldade maior para os manufaturados brasileiros. Ela explica, porém, que a piora no embarque de manufaturados não aconteceu somente este ano.

Dados da OMC, diz Lia, mostram que entre 2008 e 2013 a exportação brasileira total cresceu, na média anual, 4,1%, taxa maior que a alta de 3,1% do comércio mundial, no mesmo critério. A diferença, diz, é que enquanto a exportação de produtos agrícolas cresceu 8,1% na média anual do período, a de manufaturados teve redução de 0,3%. Na mesma comparação, a exportação mundial de produtos agrícolas aumentou 5,3% na média anual, e a de manufaturados cresceu 2,6%.

Além do fator Argentina, diz Lia, um desafio para a recuperação dos embarques de manufaturados é a elevação da competitividade. A desvalorização cambial, porém, diz, pode ser um ponto favorável. Ela lembra também que alguns setores industriais, como o automobilístico, buscam retomar negociações em acordos comerciais já existentes com parceiros promissores, como Peru e Colômbia. Além de países sul-americanos, a continuidade da recuperação dos Estados Unidos também pode ajudar a alavancar as exportações de produtos industrializados.

Para Fabio Silveira, diretor de pesquisa econômica da GO Associados, em 2015 o Brasil pode voltar a acompanhar o ritmo de crescimento das exportações mundiais. Para ele, a desvalorização cambial irá favorecer os embarques maiores para países latino-americanos, como Colômbia, Peru, Chile e México. Além disso, avalia, a economia dos EUA deve continuar crescendo, o que pode elevar as exportações não só aos mexicanos como aos americanos.

A consultoria estima que o dólar termine este ano a R$ 2,45 e chegue ao fim de 2015 a R$ 2,50. Ele ressalta que o dólar ao fim de 2013 estava em R$ 2,34 e, em dezembro de 2012, a R$ 2,04. "É uma desvalorização considerável."

Outro fator que pode beneficiar os embarques brasileiros em 2015, diz Silveira, é a recuperação de preços de commodities, que deve, estima ele, ficar mais evidente no segundo semestre do próximo ano. O economista ressalva que não haverá explosão de preços com volta aos patamares de 2011, mas é possível que os preços médios do segundo semestre de 2015 fiquem ligeiramente maiores em relação ao segundo semestre de 2014.

Para Silveira, essa recuperação de exportação pode gerar, no próximo ano, superávit de US$ 5 bilhões na balança comercial brasileira, resultado um pouco maior que os US$ 2 bilhões estimados para o fechamento deste ano.

Rafael Bistafa, economista da Rosenberg & Associados, é menos otimista. Para ele, a perda de exportação de manufaturados aos argentinos, principalmente do setor automobilístico, não será recuperada com facilidade até o fim do ano que vem. E não deve haver recuperação de preços das commodities em 2015.

Para a consultoria, a receita da exportação total brasileira continuará caindo em 2015. A Rosenberg estima, para este ano, saldo comercial próximo de zero, "talvez com pequeno déficit". Para o fim de 2015, prevê déficit de US$ 2 bilhões a US$ 4 bilhões.

Para José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), o quadro atual mostra que o país precisa mudar a política externa. Segundo ele, a dificuldade de recuperar exportações se deve não só ao efeito da redução dos preços das commodities, mas também às apostas erradas que o país fez ao dar prioridade à assinatura de acordos de comércio com países menores, o que tira oportunidades do exportador num momento em que alguns mercados, como o americano, passam a crescer.

Fonte: Valor Econômico