Grãos sobem em meio a turbulências financeiras.

23/10/2014
Colheita de milho nos EUA: apesar da safra recorde no país, cereal já subiu mais de 10% na bolsa de Chicago este mês.

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Após cinco meses com preços em queda, sobretudo por conta da recomposição das ofertas globais puxada por produções robustas nos Estados Unidos, os principais grãos negociados no mercado internacional foram "beneficiados" pelas turbulências que dominaram os mercados financeiros de países desenvolvidos nas últimas semanas e voltaram a subir em outubro. O movimento contraria as expectativas, já que a colheita desta safra 2014/15 está a pleno vapor nos EUA, o que costuma pressionar as cotações.

Na bolsa de Chicago, o grão que mais sente os reflexos dessa "corrente altista" é o milho. Mesmo com a queda de ontem, os contratos futuros de segunda posição de entrega da commodity (normalmente os de maior liquidez) registram valorização de 10,04% em outubro, conforme cálculos do Valor Data. No caso do trigo, a alta dos papéis de segunda posição no mesmo período chega a 9,28%, enquanto no mercado de soja alcança 5,26%. Nada capaz de reverter as variações negativas acumuladas em 2014 e nos últimos 12 meses (ver infográfico), mas um alento importante para agricultores e exportadores - inclusive no Brasil.

Nos EUA, maior produtor mundial de milho, trigo e soja, o avanço das colheitas começou a chamar a atenção do departamento de agricultura do país (USDA) no dia 14 de outubro. É verdade que, desde o início, o ritmo está atrasado na comparação com as últimas safras, já este outubro tem sido mais chuvoso que o normal no Meio-Oeste, que abriga o cinturão de grãos do país. A influência da lentidão dos trabalhos sobre a produtividade, porém, é limitada, já que as lavouras continuam em ótimas condições. A maior demora na recuperação de estoques em virtude do atraso das colheitas ajuda a sustentar as cotações, mas, sozinha, dificilmente provocaria os saltos observados.

A "brecha" aberta para esse movimento inesperado tem sua origem em fatores independentes da oferta - ou da demanda - de grãos. São, principalmente, as incertezas em relação ao "timing" do banco central americano (Fed) sobre a esperada elevação dos juros naquele país que ampliaram o nervosismo nos mercados e levaram investidores a novamente elevar a aposta nos três grãos, as commodities agrícolas mais negociadas.

A semana de maior estresse no mercado foi a passada, quando pareceu mais claro que o Fed ainda poderá demorar para interferir no ciclo de estímulo monetário. Entre os dias 13 e 14, as cotações da soja subiram 42,75 centavos. É verdade que, no dia 15, uma onda de vendas em massa iniciada a partir de uma queda no mercado americano de juros levou os futuros da oleaginosa a um tombo de 12,25 centavos, mas desde então os investidores voltaram às compras.

Parte dos gestores vê as commodities como um "porto seguro" frente à fraqueza nos mercados financeiros, o que atrai novos especuladores, disse Pedro Dejneka, sócio-diretor da consultoria AGR Brasil, sediada em Chicago. Embora as matérias-primas agrícolas sejam encaradas tradicionalmente como "ativos de risco", os fundos de investimento estavam com posições vendidas (à espera da depreciação dos contratos) no mercado de grãos, já que a tendência era de ofertas cada vez maiores - e isso facilitou a elevação pontual das apostas financeiras em Chicago.

"Com o nervosismo retornando aos mercados globais, fundos com posições em commodities são forçados a zerar ou reduzir suas posições. Especuladores que vinham vendidos em contratos de milho e de soja reduziram suas posições, recomprando contratos vendidos", afirmou Dejneka ao Valor.


Em seu último relatório, publicado no dia 17, a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC, na sigla em inglês) indicou que os gestores de recursos ("managed money") encerraram a semana de 14 de outubro com uma posição líquida vendida de 17.190 contratos (entre futuros e opções) de soja na bolsa de Chicago, uma retração de quase 30% ante o saldo de venda de 24.457 contratos da semana anterior.

Desde meados de julho, a soja tem sido alvo de apostas baixistas dos investidores em Chicago - em setembro, foi registrado o maior saldo líquido vendido da oleaginosa este ano, de 39.786 contratos. Também em Chicago, o milho apresentou uma posição líquida comprada de 88.668 contratos na semana encerrada no dia 14, aumento de 21% em relação à semana anterior.

Quanto ao trigo, os fundos elevaram as apostas altistas para o cereal duro (com alta de 26% no saldo líquido de compra, para 9.416 contratos) e reduziram as apostas de baixa para o brando (com redução de 11,6%, para um saldo de 60.063 contratos vendido).

Nessa semana, porém, o movimento especulativo deu uma trégua na bolsa de Chicago, e fatores mais próximos dos fundamentos de oferta e demanda passaram a oferecer sustentação às cotações. Por conta dos baixos preços dos grãos, os produtores americanos têm relutado em vender a produção que estão colhendo pelos valores atuais, criando dificuldades para as indústrias processadores instaladas nos EUA, que precisam receber matérias-primas para cumprir contratos já firmados.

"Isso está mantendo o mercado firme no curto prazo. A situação já está bem precificada em termos fundamentais. A safra até pode ficar maior [que as estimativas atuais], mas não houve situação nova", observou Stefan Tomkiw, vice-presidente da mesa de derivativos para América Latina da consultoria Jefferies Bache, de Nova York. O analista estima que a comercialização da safra de soja 2014/15 nos Estados Unidos tenha alcançado de 50% a 60% da colheita total prevista até agora. No caso do milho, o percentual está entre 35% a 45%.

Postura semelhante têm adotado os produtores brasileiros. Diante da tentativa de segurar as vendas e com a recente reação das cotações internacionais, as cotações também têm subido no mercado doméstico. Desde o início do mês, o indicador Esalq/BM&FBovespa para o milho já subiu 11,58%, enquanto o indicador Cepea/Esalq para a soja no Paraná tem oscilado "de lado", acumulando valorização de 0,47% no mês. (Colaborou Mariana Caetano)

Fonte: Valor Econômico