Juro de NTN-B cai na expectativa de gestão Levy.

27/11/2014

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A aposta de que a equipe econômica escolhida por Dilma Rousseff terá autonomia para adotar uma política econômica mais ortodoxa, tanto do ponto de vista fiscal quanto monetário, provoca uma correção importante nos preços dos títulos públicos negociados no mercado secundário. O melhor termômetro, neste momento, são as NTN-Bs. Esses títulos embutem tanto a expectativa de inflação quanto do juro real no longo prazo, duas variáveis diretamente afetadas pelas decisões a serem tomadas desde já pelo governo.

As NTN-Bs atraem tanto investidores locais quanto estrangeiros. Mas, por garantirem uma rentabilidade prefixada mais a variação da inflação, o papel é especialmente demandado por fundos de pensão, que carregam aplicações por bastante tempo. O comportamento desses títulos, portanto, demonstra claramente a percepção de risco do agente local, mais sensível ao noticiário político. E justamente o que vinha demonstrando muita apreensão com o rumo da política econômica, especialmente após a definição da eleição presidencial, no fim de outubro.

A NTN-B com vencimento em 2050, o título público mais longo emitido pelo Tesouro, chegou a render 6,43% em 13 de novembro, a maior taxa em quase sete meses. Naquele dia, o mercado vivia sob efeito da incerteza sobre a escolha do próximo ministro da Fazenda e temia um nome muito alinhado à política fiscal que prevaleceu no primeiro mandato da presidente - ou seja, pouco comprometido com a busca de um superávit primário e com o combate à inflação, em nome de maior crescimento econômico.

Foi quando o nome de Joaquim Levy, ex-secretário do Tesouro Nacional, passou a ser cogitado para a Fazenda, que a correção dessa taxa começou a ocorrer. E, ontem, o papel com vencimento em 2050 rendia, no secundário, 5,772%. Ou seja, houve um recuo de 0,66 ponto percentual em 13 dias.

"Essa queda demonstra que o mercado não apenas aprovou o nome de Joaquim Levy como acredita que ele terá autonomia para atuar", afirma um analista. "Existe a expectativa de que essa nova equipe faça as reformar necessárias para promover a reativação da economia e melhorar a eficácia da política monetária no longo prazo." Além de Levy, Dilma deve anunciar oficialmente hoje o nome de Nelson Barbosa para o cargo de ministro do Planejamento e de Alexandre Tombini para presidente do Banco Central.

Outra variável importante que vem reagindo desde que o trio foi indicado é a inflação implícita das NTN-Bs. No caso do papel para 2050, essa taxa cedeu de 6,367% no dia 13 para 5,993% na terça-feira. Ontem, passou por uma leve correção e estava em 6,021%.

A NTN-B para 2018, uma das mais negociadas, embutia uma inflação de 6,573% no dia 13 e, ontem, projetava 6,141%. Na contramão, o papel de curto prazo, com vencimento em maio de 2015, tem a inflação implícita em alta: a taxa passou de 7,813% para 9,010%, refletindo a aposta de que a próxima equipe fará rapidamente os ajustes necessários em preços administrados que estavam represados, como dos combustíveis e da energia elétrica.

A melhora dos preços das NTN-Bs, na visão de operadores, é promovida, principalmente, pelo comportamento do investidor local. O estrangeiro, segundo relato de gestores, segue cauteloso diante das incertezas, especialmente as relacionadas ao escândalo envolvendo a gigante Petrobras. Vale lembrar que esse agente aproveitou muitos momentos de piora de humor local para aplicar e, portanto, teve um argumento extra para realizar lucros neste momento. Agora, para o fluxo externo voltar a crescer, dizem profissionais, é preciso que surjam algumas certezas sobre o rumo da economia. Isso significa também que ainda há muito potencial de queda de juros desses papéis.

A hesitação do estrangeiro tem efeito sobre as taxas das NTN-Fs, os papéis preferidos dos não residentes por oferecerem prazo longo e pagamento de cupom semestral. Nesse caso, a medida de risco está na diferença entre a remuneração do papel e o juro futuro de prazo equivalente. E a queda dessa diferença ocorre mais lentamente. Para o título com vencimento em 2025, o prêmio em relação ao juro futuro estava ontem em 26,56 pontos base, ante 28,53 pontos da véspera. O título para 2023 rendia 24,85 pontos acima do DI, ante 26,88 pontos de terça-feira. Isso acontece porque os juros futuros caem com mais força do que a remuneração dos títulos, exatamente porque o apetite dos estrangeiros por papéis não foi totalmente restabelecido.

Fonte: Valor Econômico