Medida do BCE derruba euro.

05/09/2014

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O euro recuou para o nível mais baixo em quase 14 meses, após o Banco Central Europeu (BCE) lançar ontem uma série de medidas de estímulo à economia. A expectativa de analistas agora é que a tendência de desvalorização continue, especialmente se a autoridade anunciar novos afrouxamentos monetários, como é esperado por alguns economistas.

Analistas e autoridades de vários países não cessaram de argumentar que uma pré-condição para uma recuperação econômica mais sólida na zona do euro era uma moeda mais fraca, mas ainda assim a ação do BCE ontem pegou boa parte do mercado de câmbio de surpresa.

"A queda do euro, que já vinha ocorrendo, é do interesse de todo mundo na Europa e certamente haverá mais depreciação", avalia Angus Campbell, analista da FxPro, consultoria de mercados de câmbio, em Londres.

Logo depois do anúncio das medidas pelo BCE, o euro recuou pela primeira vez desde julho de 2013 abaixo de US$ 1,30, fechando com desvalorização de 1,59% ante a moeda americana, cotado a US$ 1,2938. A moeda única europeia perdeu também 1,13% em relação ao iene, e 0,85% ante a libra.

Ontem o BCE reduziu em 10 pontos-base todas as suas três taxas de juros e anunciou que em outubro começará a comprar uma ampla carteira de ABS (títulos lastreados em ativos) e "covered bonds" (títulos lastreados no fluxo de caixa de hipotecas ou empréstimos do setor público). Após os cortes, a taxa de refinanciamento da zona do euro foi para 0,05%; a taxa de depósito ficou em -0,2%; e a taxa de empréstimo caiu para 0,3%.

Uma questão que divide analistas é até que ponto o euro vai desvalorizar. Para a consultoria Capital Economics, a moeda única europeia pode valer cerca de US$ 1,25 até o fim do ano. O Rabobank projeta taxa de US$ 1,28. Já analistas do Société Générale, levando em conta a divergência de políticas do Fed (banco central dos EUA), que se prepara para elevar os juros no ano que vem, e do BCE, que adota novas medidas expansionistas, veem o valor justo do euro inferior a US$ 1,20 num prazo de dois anos.

"Achamos que o BCE vai comprar cerca de € 300 bilhões de ABS e o euro vai continuar caindo", afirma o analista Michel Martinez, do banco francês.

Elwin de Groot, economista-sênior de mercados do Rabobank, avalia que, embora o corte nas taxas de juros isoladamente seja insuficiente, a combinação das medidas "pode ser bem poderosa". "O BCE teve sucesso em derrubar o euro, o que ajuda a reduzir a desinflação no médio prazo", afirmou.

O programa de estímulos, contudo, pode não ser capaz de eliminar os riscos ao crescimento econômico na zona do euro, que ainda depende, por exemplo, de reformas estruturais nos países membros, avaliam analistas. Por conta disso, muitos economistas acreditam que o BCE pode ser pressionado a fazer mais, anunciando, por exemplo, um programa de compras de bônus soberanos (QE) no ano que vem.

Também pesa a favor de mais estímulos a declaração de Mario Draghi, presidente do BCE, feita ontem, informando que o comitê "irá usar todos os instrumentos disponíveis para garantir a estabilidade dos preços no médio prazo".

Para o economista-chefe da Capital Economics, Jonathan Loynes, as novas medidas do BCE não são suficientes para a zona do euro superar o risco de uma deflação do tipo japonês, e precisará ser lançado, de fato, um QE - o que asseguraria também um euro mais fraco.

O economista do Citi Guillaume Menuet ressaltou a importância das medidas. "Acreditamos que o anúncio do programa de compras é um passo significativo que ressalta o desejo do BCE de defender seu mandato para a inflação", diz. "Em geral, acreditamos que esses anúncios irão ajudar, todavia, não deverão ser ambiciosos o suficiente para melhorar materialmente as perspectivas de recuperação da zona do euro e elevar a inflação para próximo de 2%", avalia Menuet. Assim, ele espera que o BCE volte a fazer novos afrouxamentos, anunciando um programa de compras de ativos amplo no último trimestre deste ano ou no primeiro de 2015.

Joerg Kraemer, economista do Commerzbank, chama atenção para o volume significativo do programa de compras de ativos. Segundo ele, há € 680 bilhões em ABS e € 1,5 trilhão em "covered bonds" elegíveis à compra pelo BCE no mercado. Desse total, o Commerzbank acredita que o BCE poderia adquirir entre € 250 bilhões e € 300 bilhões dos dois tipos de ativos. O banco era um dos poucos que esperava um corte de juros na reunião de ontem.

Kraemer também continua apostando em um QE na zona do euro. Para ele, ainda há 60% de chances de a autoridade anunciar um programa de compras de bônus soberanos em 2015, porque o crescimento vai continuar decepcionando as expectativas. A projeção de crescimento pra 2015 de 1,6% do comitê, segundo Kraemer, é muito otimista.

O Nomura é outro que não descarta um QE europeu. Os economistas da instituição na Europa estimam que há 45% de chances de o BCE anunciar um programa de compra de bônus soberanos em 2015, embora esse não seja seu cenário central. Para eles, as medidas de ontem deverão ajudar a desvalorizar o euro no curto prazo, para US$ 1,27 ao fim de 2014.

Fonte: Valor Econômico