Mercado se divide sobre alta da Selic.

01/12/2014

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Depois de ter sido surpreendido pelo início do ciclo de aperto monetário em outubro, o mercado se prepara para a possibilidade de mais mudanças na postura do Comitê de Política Monetária (Copom). A ideia de um ritmo ainda mais forte na alta de juros, de 0,50 ponto percentual, ganhou espaço e já representa uma ligeira maioria das projeções apresentadas pelos economistas ao Valor. De 37 especialistas ouvidos, 19 esperam que a Selic seja elevada para 11,75% na reunião do Copom que ocorre nesta semana, enquanto 17 acreditam que o ritmo será mantido, com alta de 0,25 ponto, para 11,50%. Uma instituição disse estar dividida entre as duas possibilidades.

As expectativas para o ciclo total de aumento de juros estão mais elevadas que há um mês. A maioria dos economistas (16) vê juro entre 12,25% e 12,50%. Quatorze contam com mais 0,75 ponto, o que elevaria a Selic para 12%. Uma taxa ainda mais alta, entre 12,75% e 13%, é prevista por três especialistas. E apenas dois acreditam que o juro chegará a 11,75%. Também nesse caso, a projeção de uma instituição contempla dois cenários (12% e 12,25%). Uma casa não apresentou o cenário para o ciclo total.

Esse placar foi alterado nos últimos dias, a despeito da leitura da ata da última reunião do Copom ter sugerido que o plano de voo do Banco Central previa, inicialmente, um ajuste fino na política monetária. E também da informação dada pelo novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, de que haverá uma meta fiscal de 1,20% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2015 e de 2% nos dois anos seguintes. Também foi deixado de lado o fato de o PIB ter crescido apenas 0,1% no terceiro trimestre ante o segundo, confirmando que a atividade andará a passos lentos.

A mudança de expectativa, portanto, transcende a análise das variáveis econômicas. Por ser o primeiro encontro do Copom após o anúncio da equipe econômica, a decisão sobre a Selic tem tudo para ser lida como um sinal sobre a estratégia a ser adotada daqui para frente. Seria a primeira ação efetiva da equipe comandada por Joaquim Levy e confirmaria a esperada guinada para a ortodoxia. Além disso, esta é uma boa oportunidade de acelerar o processo de melhora das expectativas e, assim, tornar o ciclo menos custoso.

Essa é a leitura do superintendente do Departamento Econômico do Citi Brasil, Marcelo Kfoury, que elevou sua previsão de ciclo de um ponto para 1,5 ponto, o que poderia "reancorar as expectativas e facilitar o trabalho do BC de levar a inflação ao centro da meta em 2016". Também o Departamento de Pesquisas Econômicas do Itaú revisou seu cenário e agora espera um aumento de 0,50 ponto em dezembro e Selic em 12,50% no fim do ciclo de aperto, previsto para março. A expectativa anterior era de Selic a 12% no fim do ciclo.

Luiz Cherman, economista do Itaú, comenta que a estratégia do BC, explicitada no comunicado divulgado após a última reunião, é realizar ajustes oportunos nas condições monetárias para garantir, a um custo menor, a prevalência de um cenário mais benigno para a inflação. Cherman acrescenta que o Copom gostaria de ser visto como agindo preventivamente, o que significa dizer que um ajuste dos juros agora evitaria um esforço maior de política monetária no futuro.

"Em especial, a depreciação cambial foi apontada como razão para a piora do balanço de riscos para a inflação. O real se depreciou 9% este ano, e 64% desde o ponto mais apreciado em meados de 2011. Só neste mês a taxa de câmbio se depreciou 4% em relação à média de outubro. Essa deterioração adicional ao balanço de riscos para a inflação deve levar a uma reação mais contundente da política monetária", afirma o economista, em relatório.

O Departamento Econômico do Santander, que está na opção mais branda de ajuste da Selic, de 0,25 ponto, vê o Copom elevando o juro durante o primeiro semestre de 2015 até 12,5%. O Santander não alterou suas projeções após a confirmação da equipe econômica, na quinta-feira. Os economistas da instituição consideram "necessário" o aperto fiscal e monetário "simultâneo para que ocorra a convergência da inflação ao centro da meta em 2016."

O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, também trabalha com a perspectiva de aumento da Selic em 0,25 ponto nesta semana e prevê que a taxa básica chegará a 12%. Essa projeção está afinada com a expectativa de que, ao optar por Levy na Fazenda, o governo vai fazer um ajuste fiscal mais forte no curto prazo.

"Será tudo o que o BC pediu a Deus: um fiscal melhor para não precisar subir tanto a Selic", diz Vale, que não vê a possibilidade de a inflação chegar a 4,5% nos próximos quatro anos. "Os ajustes são muito mais profundos do que apenas o fiscal, especialmente em um momento em que a taxa de câmbio segue rumo diferente do que foi a partir de 2003. Dessa vez, a depreciação, junto com um BC menos ortodoxo, continuará sendo um entrave para a convergência da inflação para o centro da meta", diz.

O economista da MB avalia que a equipe econômica ao menos tentará fazer um ajuste fiscal suficiente para abrir espaço ao corte da Selic, mas explica que o grau de ajuste necessário pode ser demais para a heterodoxia da presidente Dilma Rousseff. 

Fonte: Valor Econômico