Mercados se ajustam a um cenário menos otimista.

17/10/2014

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Após uma calmaria de meses, os mercados financeiros iniciaram mais uma etapa de ajuste de preços dos ativos, cuja profundidade e duração são, por natureza, incertas. Em uma visão otimista, a correção de rumos é uma resposta a evidentes exageros na avaliação de riscos, como alternativa ao retorno pequeno ou inexistente dos ativos considerados seguros, como os títulos do Tesouro americano. Na hipótese pessimista, a reavaliação indica um mal-estar geral com a situação da economia mundial, que estaria perdendo fôlego e caminha para um período prolongado de crescimento baixo. Nesse caso, as bolsas americanas deixarão de ter o comportamento exuberante que tiveram nos últimos meses e os rendimentos dos títulos do Tesouro de longo prazo encolherão. A agitação dos mercados envolve apostas sobre o calendário da normalização monetária americana, indicando eventual postergação da época para a elevação dos juros.

Alertas combinados do Fundo Monetário Internacional, Organização Mundial do Comércio, OCDE e recentes dados sobre o desempenho da zona do euro, da China e dos países emergentes cristalizaram um contraste agudo com o clima desanuviado dos mercados financeiros. Uma mudança de rumos teria de ocorrer para modificar a situação insustentável de alta simultânea dos ativos de riscos e dos seguros. O chamado para a ação viria, esperava-se, com a proximidade do início da alta dos juros pelo Fed.

Curiosamente, os mercados reagiram à sua maneira impulsiva ao fenômeno contrário, o da possibilidade de que a economia americana possa não resistir ao peso combinado de estagnação na zona do euro, declínio da expansão em muitos países emergentes e ameaça de crescimento bem menor na China. Ontem, quando os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA de 10 anos fecharam em 2,13% (3% no início do ano) os "fed funds" sinalizaram aposta majoritária, em torno de 60%, para um aumento dos juros só em dezembro de 2015 - e algo como 40%, em 2016.

Sinais emitidos pela economia americana deixaram no ar alguma ambiguidade. As vendas no varejo foram fracas em setembro, mas muito fortes em agosto. A produção industrial subiu acima das expectativas, 1%, no mesmo mês. O que deveria resolver as dúvidas, o número de pedidos de ajuda por desemprego caíram e apresentaram a menor média desde abril de 2000. O livro bege do Fed, sobre o pulso das atividades econômicas, não apresentou nada que pudesse tirar o banco central do roteiro tentativamente traçado.

E, no entanto, a outra ponta das preocupações do Fed, a da inflação, torna-se mais insegura. Há um profundo desconforto de parte dos investidores e analistas com os sinais de uma onda deflacionária, que se reforçaram recentemente. Não apenas a zona do euro confirmou sua vizinhança da taxa zero, com o índice de setembro, de 0,3%, repetindo o do mês anterior. Os títulos do Tesouro protegidos da inflação indicam que ela caiu abaixo de 1,5%, nível próximo do qual, em vezes anteriores, foram acionadas rodadas de "quantitative easing". Mesmo na China, a inflação anual caiu para 1,8% em setembro, a menor desde janeiro de 2000.

Pressões deflacionárias nos EUA eram esperadas a partir do fortalecimento do dólar, mas agora estão recebendo reforço global com a queda rápida dos preços do petróleo e continuidade do arrefecimento das cotações das demais commodities. A demanda não encolheu apenas com a desaceleração controlada da China, a grande formadora de preços, e da Europa, como também de outros países emergentes, como Brasil e Rússia. Exceto os EUA, o crescimento não está se acelerando em vastas regiões da economia global, mostrando excesso de capacidade produtiva e possíveis novas quedas de preços à frente.

Como as economias emergentes, que ajudaram a abreviar a recessão mundial logo após crise de 2008, não têm mais força de impulso agora, há dúvidas relevantes se os EUA podem cumprir quase que isoladamente esse papel. A Alemanha, que tinha semelhante missão na zona do euro, pode ter sucumbido à mediocridade do crescimento circundante e, como exportadora, à pasmaceira global. O cenário mais provável ainda é de crescimento global importante, empurrado pelos EUA. Mas isto acontecerá em ambiente de estagnação e riscos de deflação em partes importantes do globo. A volatilidade dos mercados pode ter voltado com tudo. 

Fonte: Valor Econômico