No topo, com a inflação.

10/12/2014
Tombini mudou a comunicação do Copom, mas não a sinalização

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A inflação brasileira supera, há dois anos, a inflação média dos países emergentes e em desenvolvimento, incluídas nesses dois grupos economias, como as da Argentina e Venezuela, que não têm interesse em combater a carestia. Considerando-se os últimos 12 anos, inclusive o período de maior sucesso da política anti-inflacionária (2006-2007), o Brasil, como mostra o gráfico abaixo, teve inflação sempre superior à média mundial e à das economias avançadas.

Num mundo desinflacionário, a inflação, por aqui, está acelerando. No ano passado, o IPCA chegou a 5,9%, diante de média de 5,5% nas economias emergentes e em desenvolvimento, 3,6% no mundo e 1,2% nos países ricos. Quando se considera a média apenas dos emergentes, a nossa inflação é o dobro da observada.

Uma simples comparação mostra, portanto, que, sob qualquer critério de observação, o Brasil, mesmo tendo superado a hiperinflação ou inflação crônica do período pré-Plano Real, ainda está no grupo das nações com maior inflação do planeta. Isso traz duas desvantagens imediatas: no Brasil, o poder de compra da moeda é menor do que na maioria dos países; ter uma inflação superior à dos parceiros comerciais torna a economia nacional menos competitiva no mercado internacional.

Em sua defesa, as autoridades alegam que "ventos contrários" (choques de preços agrícolas e de commodities são sempre mencionados) têm dificultado o controle dos preços. Alguns economistas citam mudanças no padrão de consumo dos brasileiros, que, graças ao fenômeno de inclusão na classe média, teriam passado a consumir mais serviços, setor em que os preços não estão sujeitos à competição internacional.

O que não se pode esconder é o fato de que, desde 2011, o governo vem tolerando inflação mais alta, baseado na ideia de que isso permite ao Produto Interno Bruto (PIB) avançar mais rapidamente. O caso brasileiro mostra que se trata de uma tese falsa. Os números são eloquentes.

Nos últimos quatro anos, mesmo com inflação mais alta, o Brasil cresceu menos que o restante do mundo, com uma única exceção - os países ricos. Levando-se em conta as projeções do FMI para o PIB deste ano, entre 2011 e 2014, o Brasil cresceu, em média, 1,6% ao ano. No mesmo período, os emergentes e em desenvolvimento avançaram 5,1%; o mundo, 3,5%, e as nações ricas (em crise desde 2007), 1,5%.

Não há explicação aceitável: nos últimos anos, a economia brasileira saiu do caminho da virtude. O governo recorreu a políticas que fracassaram no passado e tratou o setor produtivo e os mercados como inimigos. Mesmo admitindo que, agora, o mundo avança a um ritmo mais lento, o Brasil parou de crescer antes do tempo.

De janeiro de 2011 a novembro de 2014, a inflação em 12 meses esteve sempre acima da meta de 4,5%. Nos 47 meses, foi igual ou superior a 6% - portanto, mais próxima de 6,5%, limite superior do intervalo do regime de metas - em 29 oportunidades ou 59% dos casos. Apenas duas vezes ficou abaixo de 5% - em maio (4,99%) e junho (4,92%) de 2012.

No segundo mandato do presidente Lula, o IPCA em 12 meses ficou igual ou abaixo da meta durante 21 dos 48 meses. Superou 4,5% em 27 meses (56%) e a casa dos 6%, apenas seis vezes. O cotejo com o segundo mandato de Lula tem uma justificativa: no primeiro mandato, ele herdou uma inflação elevada, de 12,5%, que acelerou e chegou a bater em 17,24% em maio de 2003 - evidentemente, a perspectiva de o PT chegar ao poder explica a maior parte daquela aceleração, uma vez que gerou temor nos mercados, fazendo o real se desvalorizar rapidamente.

Ontem, ao discursar perante a Comissão Mista de Orçamento, o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, deixou claro que conta com o "fortalecimento da política fiscal" para levar a inflação a 4,5%. O prazo para fazer isso voltou a ser dois anos, algo que vem sendo anunciado desde 2011, sem que a promessa seja cumprida. O ideal agora seria não correr mais riscos e, assim, encurtar o prazo de convergência.

O BC segue com uma comunicação em zigue-zague, fruto, decerto, de um governo que não lhe dá autonomia para agir. Na decisão da semana passada, o Comitê de Política Monetária (Copom) acelerou o passo da alta dos juros, de 0,25 para 0,5 ponto percentual, mas, no comunicado, ao prescrever "parcimônia" daqui em diante, baixou a bola do aperto monetário esperado.

Esse tom contrastou com a expressão "especialmente vigilante" que vinha sendo usada. Ontem, Tombini disse que, "nas atuais circunstâncias, a política monetária deve se manter ativa para conter os efeitos de segunda ordem dos ajustes de preços relativos". A palavra ativa significa que o Copom desistiu da "parcimônia"?

Provavelmente, não. Tombini gostaria, na verdade, de reduzir o ritmo de alta para 0,25 ponto percentual, mas vendendo a ideia de que está fazendo um esforço grande. O problema é que dificilmente os agentes econômicos acreditarão nisso.

"Acho que estão na cabeça dele mais duas altas de 0,25 ponto percentual. O mercado coloca muito mais do que isso para 2015 - cerca de 115 pontos básicos (1,15 ponto), sendo quase 50 pontos na próxima reunião. Ou seja, estamos no caso em que o BC praticamente diz que vai fazer 0,25 daqui a menos de 40 dias e o mercado diz que ele não vai conseguir (coloca exato 0,47 ponto)", observou um experiente integrante do mercado, acrescentando que esse movimento não ajuda em nada a aumentar a credibilidade do BC.

Fonte: Valor Econômico