Oferta global ainda elevada deverá conter alta do açúcar.

28/08/2014
Produção mundial de açúcar não está reagindo aos preços baixos", diz Duff.

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Em evento para uma plateia formada por usineiros e traders de açúcar e etanol, em São Paulo, o banco holandês Rabobank anunciou uma lenta transição de sobra para déficit global de açúcar, mas previu cotações médias mais elevadas para a commodity na safra mundial 2014/15 (de outubro a setembro). Para o Brasil, a boa notícia vem do etanol, que tende a atingir na atual safra brasileira (de abril a março) preços médios quase 6% mais altos que no ciclo passado, mesmo sem reajuste da gasolina.

Mas se um aumento de 5% vier nos preços do combustível fóssil na bomba após as eleições, em novembro, as cotações do etanol na entressafra (de dezembro a março), até então projetadas em R$ 1,34 por litro, podem atingir R$ 1,38. O estrategista de Açúcar e Etanol do Rabobank no Brasil, Andy Duff, lembra que um reajuste de 5% comporia uma pequena parte da defasagem entre o preço interno da gasolina e o custo de importação do combustível, atualmente na casa dos 20%.

Mas o fato é que as distorções internas não são as únicas com as quais os produtores brasileiros de cana-de-açúcar têm que lidar. Uma produção mundial robusta de açúcar, apesar de uma persistente depreciação da commodity no mercado internacional, também é reflexo de intervenções governamentais em outros países produtores que impedem que esses preços deprimidos da commodity sejam sentidos pelo produtor fora do Brasil.

"Eu me refiro a subsídios ou tarifas de importação, que mantêm preços domésticos mais elevados do que as cotações internacionais, a exemplo do que acontece na União Europeia, nos Estados Unidos, na Índia e na China", explica Duff.

Assim, nas contas do banco holandês, a produção global de açúcar em 2014/15 deve ser de um volume semelhante às 182 milhões de toneladas produzidas em 2013/14. Assim, o saldo será de um déficit, depois de quatro ciclo de sobras de açúcar, no entanto, ainda em níveis insuficientes para grandes guinadas na cotação da commodity.


O Rabobank projeta um déficit na próxima safra entre 1 milhão e 2,5 milhões de toneladas que, tende a levar as cotações médias da temporada para algo entre 18,2 centavos, caso o piso de déficit se confirme, e 19,2 centavos de dólar por libra-peso, no caso de o teto da estimativa prevalecer.

A boa notícia, afirma o especialista, é que a produção na China vai cair 7%, para 13,4 milhões de toneladas, apesar dos subsídios, o que pode impulsionar importações da commodity, apesar de essa premissa ainda gerar muitas dúvidas. "O governo chinês está pedindo para as refinarias não importarem mais açúcar a fim de não depreciar os preços internos. Temos que acompanhar".

Mas neste ano, até julho, a importação de açúcar pelos chineses cresceu em todos os meses em relação ao ciclo passado. Mas um fato é certo, conforme Duff: a maior parte da redução de 7% na área chinesa de cana migrou para o cultivo de eucalipto, que é uma cultura semi-perene, o que permite constatar, segundo o especialista, que vai demorar alguns anos para essa área voltar a ser plantada com cana.

Por outro lado, as exportações da Tailândia, principal concorrente do Brasil no mercado internacional da commodity, está em ritmo mais lento do que o esperado, o que faz o mercado acreditar em formação de estoques da ordem de 3 milhões de toneladas. A questão, segundo Duff, é que a nova safra no país asiático, projetada para repetir 11,6 milhões de toneladas, vai começar a entrar a partir de novembro e precisará ocupar os armazéns hoje com esse açúcar da safra anterior. "No curtíssimo prazo, esse produto terá que ir a mercado e, para isso, tende a haver um desconto no preço".

Para o atual ciclo no Centro-Sul do Brasil, o 2014/15, o Rabobank acompanhou a revisão da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), divulgada na terça-feira, de uma moagem de 546 milhões de toneladas. Muitas incertezas também cercam o tamanho da safra na principal região produtora de cana do Brasil no ano que vem. Neste momento, Duff projeta um piso de moagem de 560 milhões e um teto de 590 milhões de toneladas. "Apesar da seca neste ano, que prejudicou também o plantio da cana que será colhida no ano que vem, consideramos a possibilidade de oferta de 590 milhões de toneladas de cana. Partimos da premissa de que a cana é uma planta resiliente, com muita capacidade de recuperação. Se o clima na entressafra brasileira for bom, a planta se recupera", avalia.

Fonte: Valor Econômico