País pode ter recessão técnica sem desemprego.

29/08/2014

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A economia brasileira deve ter vivido - pela primeira vez desde a crise de 2008 - a chamada recessão técnica, que são dois trimestres consecutivos de queda do Produto Interno Bruto (PIB). A queda esperada pelos analistas, contudo, é bem menor do que aquela de 6% registrada na soma do quarto trimestre de 2008 e o primeiro de 2009.

Ela está projetada em menos de 1%, somando-se o primeiro e o segundo trimestres deste ano. Além de menor, a recessão da primeira metade de 2014 traz uma curiosidade: é a primeira vez em muitos anos que ela não vem acompanhada de aumento do desemprego.


Entre 2008 e 2009, durante a recessão, a taxa de desemprego aumentou. Passou de 8,1% no segundo trimestre de 2008 (pré-crise) para 8,6% no segundo trimestre de 2009 (pós-crise), para comparar períodos iguais. Na média dos primeiros quatro meses do ano, o desemprego passou de 5,6% no ano passado para 5% neste ano.

Em São Paulo, a taxa do segundo trimestre deste ano foi de 5%, bem inferior aos 6,5% de igual período do ano passado (não existem dados para a média do país, por enquanto, em função da paralisação dos funcionários do IBGE.

Antes do fim de 2008, o país também passou por dois trimestres negativos no primeiro semestre de 2003, período em o desemprego também subiu.

Apesar do desemprego ainda praticamente estável, os economista veem sinais de deterioração do mercado de trabalho e não avaliam que tenha sido preservado na crise atual. O impacto está mais claro na menor geração de vagas no mercado formal e no corte de empregos no setor industrial (mais de 70 mil vagas foram fechadas desde abril), diz José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do banco Fator.

Para Lima Gonçalves e para Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos, é falsa a percepção de que os empregos foram preservados e, por isso, a saída da crise - e a consequente retomada do ritmo de crescimento - pode ser mais rápida.

Segundo Zeina, "o segundo trimestre pode não ter sido o fundo do poço". Ela espera mais impactos negativos sobre a economia em função dos efeitos defasados da alta da taxa de juros e também por ver sinais de compressão na margem das operações industriais e aumento da inadimplência da pessoa jurídica.

A preservação dos empregos em alguns setores foi feita com sacrifício da margem de lucro das empresas, afirma Zeina. Embora isso seja positivo do ponto de vista da renda, a escolha afetou a capacidade de investimento das empresas e o capital de giro. Mais endividadas e menos produtivas, a saída da crise será mais difícil e lenta. "Há um problema de custo que precisa ser ajustado", diz a economista da XP.

Para Zeina, em alguns setores o emprego pode ter sido mantido de forma quase artificial, em função dos estímulos concedidos pelo governo. Quando começou a crise de 2008, lembra, o ajuste no emprego veio logo e isso ajudou na recuperação posterior - "que foi rápida", diz ela -, porque companhias de diferentes setores não carregaram custos que não podiam suportar.

Para Gonçalves, o desemprego tem sido baixo por questões demográficas (a população economicamente ativa já cresce menos), de médio prazo (busca de maior escolaridade) e questões de curto prazo, onde se encaixa a renda das famílias, que cresceu nos últimos anos e permitiu que parte das pessoas não trabalhassem ou trabalhassem menos.

"É esse último elemento que esse quadro vai mudar", avalia ele, ponderando que a perda do poder de compra das famílias (também afetado pela inflação) pode "devolver" pessoas ao mercado de trabalho.

Para o economista do Fator, já há um movimento de deterioração no mercado de trabalho mais claro no Caged. O setor de serviços, que sustentou o emprego e a atividade no passado recente, já mostra menor ritmo de atividade. Gonçalves projeta queda de 0,6% no PIB do segundo trimestre em relação ao primeiro, descontados os fatores sazonais, e queda de 0,3% em relação ao segundo trimestre do ano passado.

Se as projeções forem confirmadas - na média de 20 analistas consultados pelo Valor Data a queda esperada para o segundo trimestre sobre o primeiro é de 0,4% - a economia brasileira está praticamente estagnada há cinco trimestres. Depois do forte segundo trimestre do ano passado, houve recuo de 0,3% no terceiro trimestre, alta de 0,2% no quarto e subiu 0,2% no primeiro trimestre deste ano (resultado que pode ser revisto para baixo agora). Ou seja, oscila em torno de um mesmo patamar há mais de um ano.

Apesar desse quadro, e mesmo diante das perspectivas de uma vitória da oposição - possibilidade que cresceu segundo as mais recentes pesquisas eleitorais, que mostram que a candidata Marina Silva (PSB) venceria tanto Dilma Rousseff (PT) como Aécio Neves (PSDB) em eventual segundo turno -, os economistas não acham que a economia poderia voltar a crescer no curto prazo, apenas com o aumento de confiança de empresários e consumidores. Para Zeina, é preciso um ajuste de custos que permita à indústria, especialmente, recuperar parte da competitividade perdida.

Gonçalves pondera que, mesmo que a renda tenha sido preservada - hipótese que coloca em dúvida, em função do que ainda pode acontecer com o mercado de trabalho até o fim do ano - faltarão outros elementos para ajudar o consumo, como o crédito (que não vai mais crescer a taxas de 20% ao ano) e o próprio esgotamento da capacidade de consumo. "O ciclo de duráveis não é infinito, geladeira não dura só um ano, poucos compram automóvel novo todo ano", diz ele.

Para o economista do Fator, o ajuste virá de forma mais lenta. O aumento dos combustíveis e uma política mais clara de reajustes futuros podem "acordar" a cadeia de fornecedores da Petrobras; a infraestrutura pode ganhar dinamismo, dado que "está na boca" das três candidaturas. "A economia está tão parada que qualquer espirro pode ajudar", diz.

Fonte: Valor Econômico