Para analistas, alta do juro dificulta retomada da indústria.

31/10/2014
Julio de Almeida: "A decisão pode abortar princípio de recuperação do crédito"

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O Banco Central subiu a taxa Selic mirando o câmbio, mas, como não é incomum nesse tipo de situação, pode acertar em cheio a indústria. Especialistas ouvidos pelo Valor afirmam que a decisão da autoridade monetária pode comprometer ainda mais uma combalida produção industrial, ao espalhar seus efeitos sobre mercado de crédito, o comércio e também sobre a confiança empresarial.

Julio Sergio Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica, diz achar "curioso" que a autoridade monetária tenha tomado a decisão de subir o juro um dia antes de o mercado de crédito mostrar um quadro mais favorável, e no mesmo dia em que os dados de confiança empresarial registraram a primeira reação em muitos meses. "A decisão pode abortar um princípio de recuperação do crédito que há muito tempo desejamos e uma ainda incipiente recuperação da indústria", diz Almeida. "Há muita coisa em jogo."

Segundo o próprio BC, o saldo das operações de crédito cresceu 1,3% em setembro. O estoque de crédito, por sua vez, avançou de 56,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em agosto para 57,2% do PIB em setembro. Já a confiança da indústria voltou a aumentar em outubro, após nove meses consecutivos de queda. Dados da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostram que, mesmo em patamar muito baixo, a melhora foi puxada por expectativas mais positivas quanto ao futuro - justamente a variável que, segundo Almeida, pode ser atingida com a decisão do Comitê de Política de Monetária (Copom).

"Receio que a medida coloque em risco a continuidade de coisas importantes sem que a desvalorização cambial ocorrida recentemente tenha dado sinais claros de que veio para ficar", diz Almeida. A atividade na indústria paulista, por exemplo, ficou estagnada em setembro, de acordo com o Indicador de Nível de Atividade (INA), divulgado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Para o ano, a Fiesp espera queda de 5% da produção da indústria paulista. Apesar da projeção, o diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depecon), Paulo Francini, destaca que a alta de setembro é "elemento essencial" para que o setor inicie um processo de recuperação.

Para Antonio José Alves Júnior, professor da UFRJ e assessor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), é possível compreender a preocupação do BC com a inflação perto do teto da meta, mas, se representar a retomada de um ciclo, a decisão do BC pode interferir num momento em que a economia brasileira receberá um grande volume de investimentos em infraestrutura.

"Há uma clara intenção de envolver o setor privado nesses investimentos e quando o BC aumenta o juro, mesmo que em montante pequeno, a primeira reação dos agentes pode ser aguardar para ver até onde isso vai", diz o professor.

Alves Júnior enfatiza que a gestão de Alexandre Tombini à frente do BC foi muito mais "moderada" do que no passado, mas a decisão de elevar a Selic, em sua avaliação, foi excessiva. "A indústria precisa de uma taxa de câmbio mais desvalorizada para estimulá-la e o aumento do juro não contribui em nada para isso. Ele poderia ter aguentado mais", diz.

Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos, avalia que, embora seja óbvio que uma taxa de juro mais elevada contém a atividade econômica, o BC foi dúbio em sua ação e pode, na verdade, estar querendo acionar o canal das expectativas. "Isso vai dar um sinal para o mercado e conter as expectativas inflacionárias, o que é bom para a confiança de agentes econômicos."

Segundo Zeina, é o tamanho do tão esperado ajuste fiscal - que será feito "na medida do possível", mas tem que ser feito - que vai permitir entender melhor a dosagem dos juros. "O BC conta com o ajuste fiscal. Se o governo não o fizer, aí sim a indústria vai ter razão para reclamar", diz a economista.

Na mesma direção, o professor da Unicamp, Edgard Pereira, diz que toda elevação de juro é ruim para a indústria, especialmente quando o setor apresenta sinais iniciais de recuperação. "Mas a medida indica que o governo vai atuar para estabilizar expectativas, tendo ao final um impacto que pode ser positivo para a indústria", diz Pereira. "O momento de instabilidade é tal que o BC pode estar no caminho certo."

Almeida pondera que, embora o receio da autoridade monetária seja justamente que o dólar mais forte atinja com mais força a inflação, seria muito cedo para dizer que a desvalorização cambial tão almejada pela indústria realmente veio para ficar. "Mas esse BC geralmente acerta mais do que erra, então tomara que ele esteja certo". 

Fonte: Valor Econômico