Para economistas, investimento e ajuste fiscal devem sustentar PIB em 2015.

29/10/2014
Para Goldfajn, do Itaú, embora cenário de crise esteja descartado, o quadro agora é menos benigno do que em 2003.

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Se o investimento não voltar a cair, a expansão da economia brasileira deve ficar em 1,5% no ano que vem, com crescimento médio de 2% nos próximos anos, avalia o economista-chefe e sócio do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn. Segundo ele, o cenário é factível tendo em vista que as restrições orçamentárias somadas às pressões das agências de classificação de risco vão levar a algumas mudanças na política econômica.

Para ex-diretor de política econômica do Banco Central, as correções de rumo do governo reeleito se concentrarão na política fiscal. "Vai ter que mexer no primário, está todo mundo olhando com lupa." Independentemente de qualquer vontade, há ainda uma esperada depreciação cambial - com o dólar entre R$ 2,60 e R$ 2,70 - que deve ajustar os desequilíbrios do setor externo e da produtividade.

Segundo Ilan, que falou em evento ontem, em São Paulo, o superávit primário recorrente deve subir de zero em 2014 para algo entre 1,5% e 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB). A expectativa com relação à inflação é que siga em torno de 6,5%, em meio a juros com risco de subir acima dos 11% atuais.

Embora um cenário de crise esteja descartado, diz Goldfajn, o quadro é menos benigno do que o de 2003. "Naquele ano, todas as políticas deram certo, foi o boom global. Não estamos lá, estamos num mundo que vai crescer 3%, que é quase metade desse passado glorioso. Aqui, o tipo de reforma importa."

As previsões do economista do Itaú têm como base um cenário internacional difícil, puxado pela desaceleração da economia europeia e queda dos preços das commodities, que tem dificultado a recuperação da economia brasileira. Já a economia americana, disse Goldfajn, está em recuperação e pode crescer até 3%, não voltando, contudo, a crescer mais de 4%.

Em contraposição ao cenário traçado por Goldfajn, em que estaria implícito o crescimento econômico puxado pela desvalorização cambial e, portanto, pela queda da renda, Bernard Appy, sócio da LCA Consultores sugeriu que o governo reaja às restrições fiscais aumentando a carga tributária, mas sinalizando que esse aumento será desfeito no longo prazo. "Seria um mix de uma maldade necessária no curto prazo e bondades sinalizadas no longo prazo", afirmou.

Para Appy, o cenário que gera condições de crescimento precisa, em um primeiro momento, retomar a confiança na economia e isso virá com duas sinalizações claras: aumento da taxa de investimento de 14% do PIB para algo próximo de 23% a 25% do PIB - para sustentar um crescimento econômico de 4% ao ano - e aumento da produtividade.

A questão, diz o economista, é que uma taxa de investimento mais elevada não pode ser financiada só com poupança externa, mas também com poupança doméstica, o que seria feito elevando-se a taxa de poupança bruta do setor público, hoje negativa. "E isso passa por um ajuste fiscal forte ou com aumento de receita ou cortando despesa corrente. Como não há condições de corte de despesa corrente, seria necessário sinalizar que no longo prazo teremos trajetória de crescimento das despesas correntes do setor público inferior à taxa de crescimento do PIB. Esse seria o ajuste ideal", afirmou.

Appy afirmou ainda que é preciso diferenciar as políticas sociais boas das ruins. Entre as ruins, citou o sistema de pensão universal e benefícios de aposentadoria precoces, além do sistema de pensões por morte, "de longe o mais generoso do mundo", e do seguro-desemprego. Segundo ele, no Brasil, o benefício de pensão por morte custa 3% do PIB, enquanto, no mundo, inclusive entre os países desenvolvidos, corresponde a 1% do PIB. "O fundamental é sinalizar que a política fiscal é consistente no longo prazo, chegando ao quarto ano com uma política melhor."

Com relação à produtividade, a questão, afirmou ele, passa pelo ajuste do sistema tributário, ressaltando que a reforma do PIS-Cofins deve sair em breve. A abertura comercial é outro fator que pode aumentar a produtividade da economia, embora não possa ser feita "do dia para noite", afirmou. "Se a Dilma vai fazer esse ajuste virtuoso? Não sei", respondeu Appy. "A minha avaliação é que, do ponto de vista político, seria inteligente fazer essa mudança, pois a alternativa seria um cenário de crescimento medíocre, em que dificilmente se faz o sucessor em 2018."

Menos otimista, o presidente da Datamétrica Consultoria, Alexandre Rands, também presente ao evento, afirmou que não vê nomes próximos ao ex-presidente Lula no Ministério da Fazenda do segundo mandato de Dilma. Para ele, em meio às disputas internas do PT, seria mais provável a confirmação na Fazenda de nomes ligados às tendências mais à esquerda do partido, mais próximas do ex-ministro e coordenador da campanha, Miguel Rossetto. Para o segundo mandato, Rands vê alguma simplificação do processo tributário e manutenção das políticas de subsídios e desonerações tributárias ao setor produtivo.

Fonte: Valor Econômico