Produtores de trigo pedirão ajuda para vender 42% da safra.

11/08/2014
Estimamos que será necessário apoio do governo para comercializar 3,150 milhões de toneladas", diz Flávio Turra.

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Depois de dois anos surfando em preços altos, os produtores de trigo do Brasil vão voltar a pedir ajuda ao governo para comercializar a safra. O volume subsidiado tende a ser expressivo. Os triticultores querem apoio para vender 3,15 milhões de toneladas do cereal, o equivalente a 42% da nova safra, cuja colheita está estimada em 7,5 milhões de toneladas, um recorde. Essa oferta brasileira praticamente ainda não entrou no mercado, mas os preços já estão despencando.

Os moinhos, com estoques confortáveis, planejam neste ano se esbaldar na abundante colheita argentina. Nos dois últimos anos, a indústria teve que buscar trigo de fora do Mercosul, pois Argentina, Paraguai e Uruguai não tiveram oferta suficiente. Contaram com a ajuda do governo, que liberou a importação de fora do bloco sem a cobrança da Tarifa Externa Comum (TEC), de 10%. A última liberação, feita no fim de julho, permitiu a entrada de 1 milhões de toneladas até 15 de agosto.

Muitos consideram que essa medida foi um tiro no pé do próprio governo. Isso porque, agora, são os recursos do Tesouro Nacional que terão que ser empregados para equalizar os preços do cereal ao produtor.

Na visão do presidente da Câmara Setorial do Trigo, Flávio Turra, houve uma antecipação da curva de queda de preços no Brasil, em parte provocada pela liberação da TEC. Ele diz que a cotação do trigo pão tipo 1 no Paraná, na casa dos R$ 590 a tonelada, já se aproxima do preço mínimo, que é de R$ 557,50. "Mas, para essa época do ano, em que a colheita paranaense sequer atingiu 0,5% da área, era para o preço estar em R$ 650", diz.

O governo, que tem R$ 2,65 bilhões para a política de garantia de preços mínimos para todas as culturas, já acenou com a possibilidade de intervir no mercado. O secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Seneri Paludo, disse ao Valor que já há casos, no Rio Grande do Sul, de a saca estar sendo vendidas a R$ 30 - portanto abaixo do preço mínimo estipulado pelo governo, que é de R$ 33,45 por saca.

"Estamos estudando a possibilidade de realizar leilões de Pepro ou AGF [Aquisições do Governo Federal] para regular o preço do trigo", afirmou Paludo. Para o secretário, o mecanismo de AGF é uma alternativa viável neste momento, uma vez que os estoques de trigo da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estão baixos.


Os produtores vão negociar com o governo, diz Turra, também o uso do Prêmio de Escoamento de Produto (PEP). O instrumento é considerado mais acessível ao produtor. Isso porque o comprador (moinho ou cooperativa) paga o preço mínimo ao agricultor e depois recebe do governo a diferença entre o preço mínimo e o preço de mercado. "Já o Prêmio Equalizador Pago ao Produtor (Pepro) é muito complicado de ser operacionalizado por pequenos produtores, que é o caso do perfil dos que produzem trigo", diz Turra.

Mas os pedidos do triticultores não devem parar no volume de 3,15 milhões de toneladas. O superintendente da Federação das Cooperativas do Rio Grande do Sul (Fecoagro), Tarcísio Minetto, diz que será pedido ao governo que compre, via AGF, outras 500 mil toneladas do cereal da safra 2012/13 que encalharam nos estoques gaúchos.

Do lado da indústria, diz o presidente do Moinho Pacífico, Lawrence Pih, a situação está mais confortável. Ele estima que o custo de aquisição da matéria-prima nesta safra ficará 15% mais baixo do que no ciclo anterior. Diferentemente dos anos anteriores, haverá, segundo ele, uma grande oferta na América do Sul, em especial na Argentina - onde a colheita deverá se aproximar de 12 milhões de toneladas. Cientes dessa condição, os moinhos não estão nem buscando comprar antecipado do país vizinho, que começa a colher em novembro, diz Pih. "O Mercosul produzirá 23 milhões de toneladas e consumirá 18,5 milhões. Em torno de 5 milhões de toneladas terão que ser exportadas para fora do bloco, inclusive pelo Brasil", diz Pih.

O empresário acredita que os moinhos vão se voltar ao trigo argentino, cujas características são mais propícias para fabricar pão, finalidade que representa metade da demanda brasileira pelo cereal. Nos cálculos dele, do total de 11 milhões de toneladas que o Brasil consumirá nos próximos 12 meses, em torno de 3,5 milhões devem vir da Argentina.

Os preços médios do trigo apurados pelo Cepea/Esalq para o Paraná acumulam queda de 6,88% somente no mês de agosto, a R$ 598,09 a tonelada. No Rio Grande do Sul, que ainda tem encalhada produção da safra passada, as cotações declinaram 1,65% em agosto, conforme média apurada pelo Cepea/Esalq, e acumulam desvalorização de 6,75% em 30 dias.

Fonte: Valor Econômico