Recuo da participação da indústria do país no PIB só é menor que na Polônia.

01/12/2014

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No terceiro trimestre a contribuição da indústria de transformação foi positiva para o Produto Interno Bruto (PIB), com alta de 0,7% em relação ao trimestre anterior. No acumulado dos três trimestres do ano, porém, esse setor ainda apresenta queda, de 3,3% em relação aos mesmos trimestres de 2013. O recuo da indústria de transformação, na verdade, vem se agravando. Nas últimas três décadas, as principais economias do mundo sofreram um processo de queda de participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB). O Brasil, porém, teve perda maior que a média.

Um levantamento das 22 economias mais importantes mostra que de 1982 a 2012 a fatia da indústria de transformação brasileira no PIB recuou 12,7 pontos percentuais. Entre os 22 países, a perda do Brasil só não foi maior que a da Polônia, cuja indústria de transformação recuou 13,6 pontos percentuais em igual período. As informações são de levantamento do departamento de competitividade da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Na década mais recente abarcada pelo estudo, de 2002 a 2012, o recuo da indústria de transformação brasileira foi de 3,9 pontos percentuais. Dentro do universo dos 22 países analisados no estudo da Fiesp, a perda foi de 2 pontos percentuais. Na média dos nove países desenvolvidos que fazem parte da amostra, a queda foi de 1,8 ponto percentual. Nos 13 países em desenvolvimento, o recuo foi de 2,1 pontos percentuais, sempre no mesmo período.

O levantamento mostra que o encolhimento da manufatura brasileira a partir de 2002 agravou a perda já grande do setor na década anterior. De 1992 a 2002, a fatia da indústria de transformação brasileira recuou 8 pontos percentuais do PIB enquanto a média dos 22 países teve queda de 2,3 pontos percentuais. Na mesma comparação, o recuo foi de 2,4 pontos percentuais entre os países desenvolvidos e de 2,3 pontos percentuais entre os em desenvolvimento.

José Ricardo Roriz Coelho, diretor de competitividade da Fiesp, destaca que o levantamento mostra como o desenvolvimento da indústria de transformação é crucial para o crescimento econômico dos países no longo prazo.

Segundo o estudo, entre 1992 e 2002 os países em desenvolvimento contemplados tiveram crescimento de PIB médio de 3,64% ao ano. Os países que superaram essa taxa tiveram crescimento industrial médio de 7,4% ao ano. Os países que cresceram abaixo tiveram expansão industrial de 2,04% ao ano, em média.

Entre 2002 e 2012 se observa fenômeno semelhante. A expansão média do PIB no período foi de 5,29% ao ano. Nos países que cresceram acima a expansão industrial foi de 7,49% ao ano, em média. Os que ficaram com crescimento abaixo da média tiveram expansão industrial de 3,99% anuais, em média.

No longo prazo, afirma Roriz, o aumento do nível de renda per capita de um país está relacionado ao avanço da participação da indústria na economia. O diretor argumenta que em razão dos encadeamentos entre setores, o fator multiplicador da produção na indústria de transformação na economia é maior que nos demais setores de atividade. No Brasil, diz o estudo, o multiplicador da indústria de transformação é de 2,13 enquanto o da indústria extrativa é de 1,7. A taxa no setor de serviços é de 1,51 e na agropecuária, de 1,7.

Segundo a Fiesp, o custo Brasil e a sobrevalorização cambial foram os principais determinantes do encolhimento da indústria na fase mais recente. Esses dois fatores foram responsáveis, segundo o estudo, por um diferencial de preços de cerca de 34% entre o produto industrializado nacional e o importado dos principais parceiros comerciais, na média entre 2008 e 2013. No mesmo período, a fatia da indústria de transformação brasileira perdeu 3,9 pontos percentuais do PIB.

Para Roriz, a desvalorização do real frente ao dólar principalmente a partir de 2013 ainda tem um bom percurso a ser cumprido. O câmbio sobrevalorizado mantido até 2012, diz ele, desestimulou as exportações e favoreceu as importações, tirando a competitividade da indústria.

O estudo da Fiesp indica que a sobrevalorização da taxa de câmbio não aconteceu em todos os países. Entre 2004 e 2012, diz a pesquisa, entre 15 economias em desenvolvimento analisadas, nenhum país com taxa de câmbio sobrevalorizada cresceu acima de 2% ao ano. Roriz salienta que o Brasil apresentou a maior desvalorização cambial dentro do universo pesquisado, o que também resultou na menor média de crescimento da indústria de transformação no período.

De 2004 a 2012, segundo os cálculos da Fiesp, a valorização cambial média do real foi de 8,3%. No mesmo período o crescimento médio anual da indústria de transformação foi de 1,1%. Dentro do grupo de 15 países, a Venezuela veio em segundo, com valorização cambial média de 6,3% e expansão industrial de 1,7% ao ano. Na Colômbia, a valorização cambial média foi de 0,7% e o crescimento industrial, de 2,6% anuais. No México houve desvalorização média de 25,6% e crescimento industrial de 1,9% ao ano. Na China a desvalorização foi de 51,5% e a expansão da indústria, de 11,7%, sempre na mesma comparação.

Roriz lembra, porém, que o quadro demanda também mudanças estruturais. Ele menciona que o real mais valorizado no período mais recente contribuiu para a retração da indústria, mas a melhora de fatores como infraestrutura, acesso à saúde e à educação, que resulta em qualificação de mão de obra, é imprescindível. Para as indústrias, também é preciso tomar medidas para redução de carga tributária e burocracia para estar em dia com impostos e contribuições. O levantamento indica que o custo tributário, incluindo carga e burocracia, contribui para tornar o produto da indústria doméstica 13,8% mais caro que o importado dos principais parceiros comerciais do Brasil, na média entre 2008 e 2013. O custo da energia e das matérias-primas eleva o preço do produto doméstico em 3% e a infraestrutura, em 1,5%.

O diretor da Fiesp reconhece que as mudanças estruturais demandam prazo maior. No curto prazo, porém, ele diz que sinalizações importantes podem ser dadas por uma política industrial. No âmbito do comércio exterior, a demanda é pela simplificação de procedimentos e na esfera tributária um bom começo, considera, seria a ampliação dos prazos de pagamentos de tributos. Hoje, diz, os prazos apertados obrigam as indústrias a recorrer a capital de giro para cumprir os pagamentos.

Fonte: Valor Econômico