Rodrigues tenta aproximar usinas e governo.

30/07/2014
"Fui defensor da agroenergia no governo Lula", afirma Roberto Rodrigues.

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Há cerca de dois meses à frente da presidência do conselho deliberativo da Unica, entidade que representa uma fatia majoritária da produção de açúcar e etanol do país, o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, diz que não é romântico a ponto de achar que todas as demandas das usinas de cana serão atendidas agora que ele está do lado dos empresários do setor.

Mas reconhece que sua reputação como liderança do agronegócio já ajudou. "As discussões com a área técnica do governo federal já vinham sendo conduzidas de forma muito competente pela Beth [Farina, presidente-executiva da Unica], mas havia algumas resistências no governo. Acredito que o Mercadante [Aloizio Mercadante, chefe da Casa Civil] 'azeitou' essa relação", diz.

Em entrevista ao Valor no escritório na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, onde coordena o Centro de Agronegócio da instituição, Rodrigues lembra que um dia depois de assumir o conselho da Unica, ligou para o titular da Casa Civil para agendar uma conversa. "No dia seguinte estava em Brasília em reunião com o Mercadante. Fiz críticas ao governo. Não dá para entender como conseguiram destruir um setor [o sucroalcooleiro] e a Petrobras em um tiro só. Me sinto mal, pois é um governo [do PT] do qual eu participei", afirma Rodrigues, que foi ministro da Agricultura na gestão Lula.

Ele acredita que o atual governo deve tomar alguma posição para mudar o cenário perverso em que se encontra o etanol, de custos altos e preços limitados à cotação da gasolina. "Este ano tem eleição, o que leva à revisão dos próprios procedimentos do presidente da República", afirma.

O objetivo pode até não ser beneficiar o etanol, mas deve gerar esse efeito indireto. "A presidente Dilma ama muito mais a Petrobras do que as usinas de etanol, e a estatal não vai aguentar muito mais tempo desse jeito [com defasagem da gasolina em relação às cotações internacionais do petróleo]", afirma.

Questionado se um novo governo seria mais benéfico para as usinas, Rodrigues reconhece que os dois candidatos (Eduardo Campos e Aécio Neves) estão defendendo "vigorosamente a agroenergia". "Mas vai saber? O discurso é muito melhor do que o do atual governo, não obstante a posição do Mercadante estar sendo de maior proatividade".

Mas Rodrigues não tem dúvidas de que se, em vez de Dilma, seu antecessor estivesse na presidência, o cenário para o biocombustível teria sido diferente. "O Lula é uma figura interessante. Ele capta as coisas. Intui os processos rapidamente. Ele percebeu o papel global que o Brasil exerceria com a agroenergia e, por isso, apoiou muito o setor no seu governo", diz o ex-ministro.

Ele não acredita que Dilma "tenha raiva" do setor, como muitos apostam. Talvez "implicância com algumas pessoas do setor". Mas o que determinou mesmo a escolha da presidente, diz Rodrigues, foi a decisão de combater a inflação por meio do controle do preço dos combustíveis.

Uma série de demandas das usinas caminha, sem solução, desde o primeiro ano do governo Dilma, há quase quatro anos. Muitas delas incompatíveis com a atual política do Planalto de controlar o dragão da inflação. A indústria de etanol quer a volta da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) na gasolina - o tributo foi retirado há dois anos, para amortizar o aumento do combustível fóssil na refinaria. Quer ainda o fim do controle de preços de combustíveis no país e, o mais elementar, a definição do papel do etanol e da eletricidade de biomassa na matriz energética.

Mais recentemente, tem-se falado sobre a possibilidade de elevar o percentual de mistura do anidro na gasolina, hoje em 25%. A demanda vem sendo considerada factível, pois num único tiro, aumentaria a demanda por etanol e aliviaria o caixa da Petrobras, que precisaria importar menos gasolina - operação que a estatal realiza com prejuízo. "Mas essa história não terá impacto este ano. Estudos ainda estão sendo feitos. Além disso, a seca está reduzindo a produção da cana neste ciclo".

Como é de conhecimento de muitos no segmento sucroalcooleiro, Rodrigues já foi fornecedor de cana-de-açúcar em São Paulo - há 17 anos, transferiu suas terras aos filhos. "Já briguei muito com usineiro. Sempre foi uma relação difícil", diz referindo-se às discussões que resultaram mais tarde no pagamento ao fornecedor pelo teor de açúcar na cana, método em vigor até hoje, na cana e não pelo peso.

No auge dessas discussões, nos idos de 1976, muitos, lembra Rodrigues, temiam até pela sua vida. Mas o setor era muito diferente do que é hoje, observa ele. "Está mais concentrado, com presença de grandes grupos internacionais e nacionais."

A atual configuração fez as usinas menores, sem ligação com nenhum grande player, se sentirem sem liderança dentro da Unica. Esse quadro, potencializado pela crise no setor, afugentou antigos associados, que resolveram se desligar da entidade.

Para reverter o quadro, a Unica reduziu o valor das contribuições associativas e evitou a saída de empresas que sinalizavam deixar a entidade, como o grupo Nardini, e ganhou a adesão de outras, como a Alto Alegre. Ambos passaram a ter assento no conselho. "Outros grupos devem retornar. Muitos estão conversando comigo", afirma Rodrigues.

Conhecido pelo perfil conciliador, Rodrigues também tem a missão na Unica de diversificar seguidores. "Querem essa visão de cadeia produtiva. Estamos todos integrados: usinas, setor de equipamentos, pesquisa, comercialização", resume.

Fonte: Valor Econômico