Tesouro faz resgate de R$ 167 bi no ano.

17/11/2014

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Pelo segundo ano consecutivo, o Tesouro Nacional deve fazer em 2014 um resgate líquido da dívida pública mobiliária. Desde janeiro até a segunda quinzena de outubro, o total de vencimentos de títulos superou as novas emissões em R$ 167 bilhões. Sem mais resgates previstos neste ano, se o ritmo de venda de papéis for mantido nas próximas semanas, esse saldo deve ficar em R$ 110 bilhões no encerramento de 2014. Em 2013, havia sido de R$ 87 bilhões.

Esse quadro pode ser lido, em primeiro lugar, como termômetro da piora da percepção de risco. Embora o Brasil ofereça um dos mais elevados retornos do mundo, o investidor está relutante em comprar esses papéis - ou, no mínimo, pelo prazo e condições estabelecidos nos leilões -, porque vê riscos à frente. "Há sinais de que o Tesouro está precisando mais de caixa e isso leva o investidor a ficar mais seletivo em termos de prazo e rendimento", diz o diretor operacional da Tullet Prebon, Christiano Clemente.

Para o economista-chefe da LCA, Bráulio Borges, a postura mais seletiva do investidor reflete a "deterioração recente dos indicadores fiscais, sobretudo de fluxo, como os resultados primário e nominal, e de crescimento econômico, bem como pela falta de sinalizações objetivas do governo acerca das correções de trajetória da política macroeconômica que serão adotadas no futuro próximo."

A necessidade de resgatar dívida representa, ao mesmo tempo, um complicador para a gestão das contas públicas, colocando em risco a manutenção da condição de "grau de investimento" do Brasil. É a divida mobiliária, que em setembro alcançou R$ 2,10 trilhões, que financia grande parte da dívida bruta (R$ 3,132 trilhões, na mesma data). Portanto, se a dívida emitida pelo Tesouro encolhe ou encarece, o governo tem mais dificuldade para fechar as contas. Não se vê risco de solvência no horizonte, mas um quadro que impõe uma deterioração importante no perfil da dívida, um dos elementos levados em consideração pelas agências de classificação de risco de crédito.

Borges, da LCA, lembra que a dívida bruta equivale hoje a cerca de 60% do PIB, dentro da média do que se vê entre outros países com classificação se risco semelhante à brasileira. O sinal amarelo é aceso quando essa proporção supera os 80%. "Mas o que se vê é uma piora do perfil da dívida mobiliária, que está ficando mais curta e mais cara, piorando as condições de liquidez do país. E a diferença entre a iliquidez e a solvência é uma questão de prazo", afirma Borges.

Na visão do economista, os preços pagos pelo Tesouro ao vender os títulos públicos já são compatíveis com esse quadro de perda do grau de investimento. Ele cita a NTN-B 2050, título público mais longo emitido pelo Tesouro, que rende uma taxa real de juros de 6,35% neste momento. Há exatamente um mês, estava em 5,3%. "É uma taxa que já embute uma probabilidade de haver a perda do investment grade", diz Borges.

O mesmo vale quando se olha para outros papéis prefixados. Vitor Péricles Carvalho, da LAIC-HFM Gestão de Recursos, observa que um dos termômetros que medem o apetite do investidor é a diferença entre o rendimento do papel e o juro futuro de prazo equivalente. E esse diferencial vem em franca elevação há semanas. No caso das NTN-Fs com vencimento em 2021, papel prefixado, o Tesouro pagou uma taxa de 12,95% ao ano, 21 pontos base acima do DI. Por pagar cupom semestral, o natural é que esse papel tenha uma taxa inferior à do DI. "Esse desempenho indica que não está entrando dinheiro novo no mercado por causa das incertezas", afirma Carvalho.

Ele acrescenta que a indefinição sobre quem ocupará o cargo de ministro da Fazenda - informação que indicará que política econômica será colocada em prática - é um elemento crucial nesse comportamento do mercado. A partir desse dado, agentes financeiros avaliarão se é possível acreditar ou não na reversão da trajetória negativa dos números fiscais e, assim, diminuir o medo de um rebaixamento da nota soberana. "Diante desse receio, a dívida fica mais cara e curta, mas ainda é possível colocar tudo isso nos eixos, com a definição de uma boa equipe econômica", diz o especialista. 

Fonte: Valor Econômico