Tombo das commodities abala emergentes.

12/12/2014
Investidores devem continuar vendo emergentes de forma diferenciada e separar vencedores de perdedores, diz Gomez, da Pimco.

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A forte queda dos preços dos ativos brasileiros nesta semana, sobretudo das ações da Petrobras e do real, que bateram mínimas em quase dez anos, é parte de um movimento global de venda de ativos de risco, em meio à deterioração nas expectativas para o crescimento econômico global e renovadas preocupações com a Grécia.

Esse cenário tem reforçado a queda do preço das commodities, em especial do petróleo, que está na mínima em cinco anos, e favorecido a apreciação global da moeda americana. No Brasil, além do grande peso das commodities na economia, incertezas sobre os rumos da política econômica têm contribuído para acentuar essa correção.

Ontem o dólar subiu 1,34% e fechou a R$ 2,6477, no maior nível desde 1º de abril de 2005.

O Ibovespa, que tem perdas de 8,8% no mês, conseguiu respirar ontem, com alta moderada de 0,63%, aos 49.861 pontos, acompanhando a melhora das bolsas nos Estados Unidos. Mas a preocupação com as commodities continua pesando sobre as blue chips: a ação PNA da Vale caiu 2,94%, e o papel da Petrobras recuou 0,09%.

Para a estrategista de câmbio para América Latina do Royal Bank of Scotland (RBS), Flavia Cattan-Naslausky, o choque recente no preço de commodities indica uma mudança estrutural. "O choque de preços das commodities deve ser mais prolongado e permanente e os países exportadores desses ativos vão ser os que mais vão sofrer."

A desaceleração da China, a recessão no Japão e a fraqueza das economias da Europa contrastam com a recuperação dos Estados Unidos. A perspectiva de normalização da política monetária americana traz uma pressão ainda maior para as moedas emergentes, aumentando a demanda global por dólar e o enfraquecimento do preço das commodities.

Nesse cenário, a reunião do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), prevista para o dia 17, pode trazer ainda mais volatilidade para os mercados emergentes. O mercado vê a possibilidade de o Federal Reserve retirar do comunicado a expressão "taxa baixa de juros por um período considerável", o que indicaria a disposição da autoridade monetária em iniciar o processo de alta da taxa básica, o que tenderia a intensificar o fortalecimento do dólar.

Analistas consideram que há também na recente piora de preços no Brasil uma dose de ansiedade em relação ao anúncio de medidas econômicas. Para Flavia, do RBS, apesar da nomeação da nova equipe econômica trazer um pouco mais de credibilidade, a necessidade do governo em anunciar mudanças na área fiscal aumenta com a piora do cenário externo.

Menos de um mês se passou desde a confirmação de Joaquim Levy à frente do Ministério da Fazenda e o efeito positivo provocado por esse anúncio já foi praticamente absorvido. Os juros, observados tanto nos contratos futuros negociados na BM&F quanto dos títulos públicos, devolveram praticamente toda a queda registrada a partir de 14 de novembro, dia em que os mercados viveram uma sessão de intenso nervosismo pela indefinição a respeito da equipe e também pelo estouro da nova fase da operação Lava-Jato.

Uma das medidas de risco mais importantes a serem acompanhadas pelos mercados é a inclinação da curva a termo - a diferença de taxa entre contratos longos e os mais curtos. O spread entre o DI com prazo em janeiro de 2017 e o de janeiro de 2021, medida de risco de médio prazo, estava perto de zero às vésperas da indicação dos nomes da nova equipe econômica. Depois disso, caiu e alcançou -0,55 ponto percentual. Na última semana, o diferencial voltou a abrir e ontem estava em -0,14 ponto.

Outro indicador que mostra o aumento da percepção de risco em relação ao Brasil é o Credit Default Swap (CDS) - que mede o risco de calote da dívida soberana dos países. Ontem, o CDS do Brasil de cinco anos estava em 188 pontos-base, próximo dos maiores níveis desde fevereiro, quando os mercados emergentes foram varridos por uma onda de pessimismo.

Para o diretor-gerente e responsável pela gestão de portfólio para mercados emergentes da Pimco, Michael Gomez, houve uma diferenciação de preços no recente "sell-off" (venda generalizada de ativos) e a perspectiva é que os investidores continuem vendo esses mercados de forma mais seletiva, separando de forma mais acentuada os vencedores dos perdedores.

No caso do Brasil, ele destaca que a alta da taxa básica Selic não é a única variável que tem impacto na política monetária. Ele afirma que a decisão sobre a normalização das taxas de empréstimos subsidiados também é importante.

De acordo com matéria publicada no Valor em sua edição de quinta-feira, o Conselho Monetário Nacional (CMN) pode aumentar ainda neste ano a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), hoje de 5% ao ano, que baliza os empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES) na última reunião do ano, prevista para 18 de dezembro. Isso é importante dada a grande diferença entre as taxas com que o Tesouro capta no mercado, cujos recursos tem sido usados para subsidiar os empréstimos do BNDES.

"O aumento da TJLP em 18 de dezembro enviaria um sinal muito forte aos mercados, no que se refere à normalização das distorções do passado no modelo econômico, e seria muito bem recebido pelos investidores estrangeiros. Além disso, ajudaria a promover o desenvolvimento do mercado de capitais doméstico", afirma Gomez.

Já o estrategista de câmbio para mercados emergentes do banco Brown Brothers Harriman, Ilan Solot, afirma que o cenário ainda é de pessimismo e não apenas fundos têm evitado aumentar alocações em Brasil, como já começaram a retirar recursos. "O Brasil está numa sinuca de bico: precisa apertar a política monetária, a política fiscal e deixar o câmbio andar. Tudo isso num ambiente de inflação elevada e crescimento muito baixo", diz Solot. "É uma equação muito difícil de resolver."

O estrategista lembra que há dúvidas de todos os lados. Escândalos de corrupção envolvendo a Petrobras, incertezas sobre o futuro do programa de leilões de swaps cambiais e sobre o ciclo de aperto monetário, que acabam impactando a confiança no comprometimento do BC com o controle de preços.

A queda da confiança já tem se refletido também na bolsa. O investidor estrangeiro, que ainda tem saldo positivo no ano na Bovespa de R$ 21,5 bilhões, vem retirando lentamente recursos da bolsa no mês. O saldo está negativo em R$ 993,895 milhões em dezembro, até o dia 9.

Para o estrategista do BB Investimentos, Hamilton Moreira Alves, a tendência é de o Ibovespa buscar os 45 mil pontos ainda este mês. Isso significaria uma queda adicional de 9,3%.

Fonte: Valor Econômico