Pioram as perspectivas para os preços internacionais de grãos.

14/07/2014

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Pioraram flagrantemente as perspectivas para as cotações de alguns dos principais produtos agropecuários negociados pelo Brasil no exterior no curto, médio e longo prazos. Novas projeções divulgadas na sexta-feira pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e pela FAO, braço das Nações Unidas para agricultura e alimentação, confirmaram a tendência de crescimento da oferta global e sinalizaram uma queda no ritmo de aumento da demanda.

Nesse contexto, ambos os órgãos sinalizaram quedas de preços. O cenário poderá prejudicar a rentabilidade dos produtores e as exportações de países fortes em commodities, com reflexos sobre o nível de atividade de regiões mais fortemente dependentes da agricultura e da pecuária. Em contrapartida, tende a reduzir a pressão dos alimentos sobre os índices inflacionários globais, uma preocupação quase permanente nos últimos anos.

O quadro "baixista" de curto e médio prazo ganhou contornos mais firmes a partir da divulgação do novo relatório do USDA com projeções para a oferta e a demanda de grãos nos EUA e no mundo na safra que está em fase final de plantio no Hemisfério Norte (2014/15). O resultado do cruzamento dos dados não só confirmou os aumentos dos estoques finais globais de milho, trigo e soja ao longo da temporada em relação a 2013/14 como inflou esses incrementos em relação ao horizonte traçado em junho passado.

Os estoques de milho foram ajustados para 188,1 milhões de toneladas de milho, 8,4% mais que no ciclo anterior, os de trigo foram calculados em 189,5 milhões de toneladas, 2,8% mais na comparação, e os de soja foram elevados para 85,31 milhões de toneladas, em alta de 26,9%. No total, portanto, os estoques dos três grãos, básicos para a alimentação humana e para a produção de rações, ficarão quase 38 milhões de toneladas maiores. Somadas a uma situação menos apertada do que se supunha para o que resta da safra 2013/14 nos EUA, as contas influenciaram na forte queda das cotações do trio em Chicago na sexta-feira.

No mercado de soja, principal produto do agronegócio brasileiro - em 2014/15, o país será o segundo maior produtor e exportador mundial do grão, atrás dos EUA, que deverão colher mais de 100 milhões de toneladas -, os contratos futuros para entrega em agosto (que ocupam a segunda posição de entrega) caíram 3%, para US$ 11,9575 o bushel. A segunda posição do milho (setembro) recuou 2,1%, para US$ 3,7825 o bushel, enquanto a do trigo (setembro) registrou uma retração de 4,1%, para US$ 5,26 o bushel.

Essa tendência influenciou uma pequena revisão para baixo na estimativa do Ministério da Agricultura para o valor bruto da produção (VBP) agropecuária no Brasil em 2014. Com um cenário menos positivo para soja e milho, além de outros produtos, como o frango, a projeção oficial recuou na comparação com a projeção divulgada em junho para um total de R$ 447,7 bilhões, valor 2,8% superior ao de 2013 e ainda um novo recorde histórico. Particularmente no caso dos grãos, produtores já esperam mesmo margens menores na safra 2014/15, que também deverá ser marcada por aumento nos preços dos insumos.

E a espiral baixista dos preços poderá se aprofundar (exceto para o trigo), caso prevaleçam as estimativas mais pessimistas do USDA. O órgão espera que os preços da soja pagos ao produtor americano em 2014/15 oscilem de US$ 9,50 a US$ 11,50 por bushel. Para o milho, o órgão sinalizou um intervalo de US$ 3,65 a US$ 4,35 por bushel, enquanto para o trigo é esperada uma faixa de US$ 6 a US$ 7,20 por bushel.

A FAO foi além. No relatório que divulgou na sexta-feira em conjunto com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), previu que a queda dos preços internacionais dos principais produtos agrícolas deverá persistir ao longo dos próximos dois anos, até que se estabilizem em patamares superiores aos verificados antes de 2008, mas abaixo dos picos históricos mais recentes.

Segundo FAO e OCDE, a demanda por produtos agrícolas deverá se manter firme nos próximos anos - porém, com taxas de crescimento mais modestas do que as vistas na década passada. Em um prazo mais longo, até 2023, os cereais deverão persistir como o cerne da alimentação humana, mas proteínas, gorduras e açúcar tendem a ganhar espaço em muitas partes do globo, como um reflexo do crescimento de renda e do aumento da urbanização.

No relatório conjunto, denominado "OECD-FAO Agricultural Outlook 2014-2023", as instituições argumentam que o crescimento da população global exigirá uma aumento "substancial" da produção global. Na avaliação do relatório, Ásia e América Latina representarão mais de 75% do crescimento agrícola necessário até 2023. O relatório prevê que a produção global de cereais crescerá 15% até 2023, na comparação com 2013. O incremento mais rápido esperado para a próxima década é o da produção global de oleaginosas, que deverá crescer 26%.

Conforme o relatório, o crescimento da produção de grãos forrageiros e oleaginosas será impulsionado por uma forte demanda por biocombustíveis, notadamente em países desenvolvidos. Nos emergentes, a demanda para alimentação humana é que puxará a produção.

Fonte: Valor Econômico